sábado, 29 de novembro de 2014

Porra e outra vez Porra

E outra vez...

Caramba, sinto a raiva não conseguir conter, mas ainda assim quero-a manter, para algo sentir. Sem ela apenas o vazio me resta. Vazio esse que tanto esforço custou em preencher.
 
Preenchimentos feitos de ilusões e sentimentos a espaços, sem materialidades distantes da dimensão física e temporal, para além dos momentos. Para mim momentos mas tudo significando dentro dessa dimensão.
 
Desequilíbrio absurdo, pautado por uma tontura sentimental que impossibilita qualquer discernimento de lógica, ou perceção de preenchimento.
 
Preenchido ou vazio, ilusório ou real, que importa se este ardor me destrói num desagrado de incompreensão.
 
Assassino de sentimentos, cuja vítima julgaria ser apenas eu, mas que provoca genocídio das personagens que tomam forma nos momentos.
 
Porra mas que porra... 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Medo

Ancestral sofridão e demonstração de fragilidade animal. Medo de tanto, medo de nada, medo de sentir, medo de viver. Porque terá surgido? Como surgiu?

 
Dor, ódio, falta de amor, repúdio, sofrimento, angústia, desilusão, perda, solidão, choro, fragilidade... Tudo pedras arremessadas à fundação do individuo ameaçando-o fazer ruir, numa devassidão que suprime todo o desejo, toda a cor, toda a coragem.
 
 
Tão pouco é preciso fazer para afastar o medo, mas tanto mais o faz regressar. Desequilíbrio de ações que se traduz num absurdo duelo entre o passo em frente e a rendição figurativa à posição fetal.
 
 
Rosto que te toldas perante o medo
É de um abraço que precisas?
Um beijo talvez, ou nada quem sabe
Ofereça o pobre aquilo que não tem
Porque gozas tu coragem o medo?
Tu que estás só, ele que tem tanta companhia
Eu, tu, ele, nós, vós, eles - todos
Todos temos medo de algo, medo de ter medo
É isso o medo - somos nós!


In Letras do Olhar 06 de Junho 2014

domingo, 12 de outubro de 2014

De volta ao refúgio

O ser humano nasce e perante ele se prostra um mundo de possibilidades, de infinitas descobertas. Cresce a aprender, a conhecer, a explorar, desenhando o seu mapa e traçando novas fronteiras. De início usa todos os seus sentidos; os olhos para saber o que pretende alcançar, seduzido por cores, movimentos e formas; os ouvidos para entender entre o indecifrável desejo dos progenitores em comunicar, se se tratam de estímulos para prosseguir ou de alerta; os rudimentos da fala que exteriorizam mais de que vocábulos, mas sons de pura orgânica, anunciando a sua presença; o tato e o nariz, ainda presentes pela boca, pois a criança tudo cheira, tudo toca, levando simplesmente à boca.
 
 
O desejo de refúgio, de segurança é superado pelo desejo da aventura,  da descoberta, do alargar de horizontes. O conforto, a comodidade, a segurança do refúgio está lá, bem presente, sempre de braços abertos.
 
 
Cresce o ser humano e a cada descoberta, a cada traço no mapa exponencia-se a sensação de vazio. Desvanece-se o entusiasmo, surgem as dúvidas... A teimosia de não desistir sempre empurrando em frente, trás a dada altura a consciência da dimensão ridícula que cada um na verdade tem. Escala de tempo e espaço de dimensão reduzida, na vastidão do que há ainda por descobrir.
 
 
Os ouvidos nada parecem escutar, a boca fala da mente em línguas que ninguém parece compreender, o cheiro captado é irreconhecível, os olhos fecham-se pois não querem olhar para lado algum, como que impedindo assim a progressão. As mãos essas, as mais insanas, abrem-se em toda a amplitude, num gesto de generosidade e no rosto procuram tapar boca, olhos, ouvidos e nariz...
 
 
Num rasgo de coragem, olhando em redor procura-se o conforto. Sim ele, onde está? Em mares tenebrosos procura o farol que te encha de calor, de energia, de esperança. Segue-o, ele consegue trazer-te de volta, de regresso ao refúgio...
 
 
Encontrar o equilíbrio entre o conforto e a descoberta é a chave do indomável espírito humano. Os que do conforto prescindem, nada farão com a descoberta. Quem não se liberta do conforto, já mais descobrirá o seu lugar e o sem tempo, embora porém possivelmente mais felizes pois a sua dimensão é a que escolhem ter.
 
 
Sai, aventura-te, descobre, arrisca, vive e sente! Encontra o teu farol, mantenho-o sempre presente, mesmo que te surja pelo canto do olho como uma imagem desvanecida e desfocada. Assim que a dor, o cansaço, a saudade, a tristeza surgirem, vais querer voltar ao refúgio!
 
In Letras do Olhar em 17 de Maio 2014

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Sílabas

Palavra que define o meu estado - sílabas. Palavra que nem o chega a ser, não é mas chama-se. A palavra tem três, e elas as sílabas têm uma. O que contem o quê e quem define quem?
 
Assim sou eu, uma intenção, somatório de despropósitos, definindo-me em fórmulas sem exatidão. Queria ser apenas a sílaba porque gosto, porque soa bem, porque ninguém a define, porque não é nada e traz a liberdade de tudo. Liberdade de imaginar, liberdade de completar, liberdade de recriar. Não quero existir nas fronteiras delineadas da palavra, preciso mais espaço, preciso mais liberdade.
 
Sílabas, que bem me soam, como delas gosto. Sílabas repito uma e outra vez, repito todas as vezes que necessito menos uma, por mais que some um ao infinito. Mas escuto-me e acalmo-me, expando-me, relaxo e abstenho-me da melancolia que se apodera. A melancolia que sempre desejo, mas que a saudade não sinto, quanto por perto não a tenho presente.
 
Entre palavras que mais não são que sílabas traço rudimentos do que apoquenta o âmago e liberto-me no poder que me reencontra caprichosamente...

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Aqui e agora

E aqui estou eu. Aqui neste momento e agora neste sítio.
 
Tanto tempo volvido surjo, sem qualquer estranheza pois a sincronia das sensações espelhadas na rotina a que me obrigo, assim o dita. O tempo é agora e o despertador toca. A dormência de risos sem conteúdo, alegria sem motivo, descontração e euforia apenas ameaçada por uma sensação de estranheza, como brisa fria num dia de calor.
 
Tinha de ser, sinto-me eu, agora e aqui, sim eu... Porra de melancolia porque tardas-te, agora não me sinto tão só. Já não rio, já não me encho de euforia mas encontro-me preenchido com tanto vazio.
 
 
Do you know when you feel overwhelmed with something and simply someone whisper close to you ear?! So, it's really me: the best pessimist walking with happiness.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Um dia, criança, um dia!

Alheio a tudo, pequeno ser com todo o significado da existência. Retratos esborratados de figurantes que mais não são que isso. Deslumbres de atividades, aparentemente longínquas.

Captura de desejo por concretizar ou, imagem indistinta do passado, tanto faz. Lentamente o foco surge sobre a criança e tudo em redor se desvanece na importância inexistente. Fosse o mundo assim, fossem os problemas e as soluções passíveis de serem trabalhadas com um brinquedo.
 
Felicidade contida em tão pouco. Simplicidade e harmonia tranquila. Nada aflige, nada preocupa, nada distrai. É uma criança, é a pureza, é a ingenuidade. Resumindo é tudo o que o que se esbate e desaparece, não o sendo.
 
O beijo quente do sol, a frescura da água, o aconchego do chapéu, a textura da areia, o silêncio do ruído distante... Fascinante imagem que suscita dos mais primários instintos de progenitores, nos desígnios do saber ter perdido, o que sempre deveria existir.
 
Palavras cruas, frias, aparentemente desprovidas de calor emotivo, num render incondicional ao que por esta foto foi roubado. Velhas crenças, significados recentes, roubo o houve, não da alma da criança, mas do espírito de quem pelo retrato a observa.
 
 
In Letras do Olhar, 08 de Maio 2014

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Por um caminho diferente

O percurso na vida: ponto de partida, local de chegada, nascimento, morte. Algo liga estes dois pontos, reta essa que poderá ser chamada de percurso.

A geometria da vida não segue contudo a matemática e a racionalidade dos números. A reta toma diversas direções, sentidos opostos, numa insanidade à qual não se encontra Criador para tal.
 
Destino, aflora à ideia desta conceção, mas não, seria demasiado redutor, simplista por assim dizer. Ponto de partida, ponto de chegada, unidos por um percurso, que toma diversos caminhos. Nesta simplicidade reside o início desta ideia...
 
Caminho ladeado por árvores, há muito pouco tempo desprovidas de vida, de folhas, de cor. Os pássaros exibem-se numa profusão de sons; os ramos esgalham-se, assediados pela mesma brisa que acaricia a pele despida e suada do caminhante; pelo nariz invadem promessas de esplendor odorífero.
 
Inquietante escolher um caminho, o caminho. Horrendo por vezes seguir nesse mesmo caminho. Por vezes o caminho é muito largo e muitos seguem a par do caminhante, outras porém seguirá sozinho mais tempo que o deseja, pois os obstáculos terão de ser vencidos na individualidade.
 
Por vezes, as árvores estão totalmente despidas, chove e está frio; outras vezes está calor, e na sombra das árvores encontra-se resposta à súplica para refrescar; por vezes o caminho está tal qual aqui se mostra; outras vezes é sugada a energia das folhas, até que se debruçam num último mergulho sobre o chão, ostentando cores intensas e acariciando os passos do caminhante...
 
Sazonalidades, simples caprichos do destino. Destino insiste em surgir, mas aqui não toma lugar. Se ao menos os caminhos tivessem setas amarelas indicando qual a escolha, com a sensatez de fazer parte do percurso!
 
Escolhe sentir, escolhe descobrir, escolhe confiar nos sentidos, escolhe seres tu. Escolhe saber escolher, com consciência de onde vens mas sem te importares para onde vais e qual o fim. Saberás ser o teu destino quando souberes afirmar: estou aqui e estou vivo!
 
Se ainda não o sabes dizer então segue por um caminho diferente...
 
In Letras do Olhar em 04 de Maio