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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Medo

Ancestral sofridão e demonstração de fragilidade animal. Medo de tanto, medo de nada, medo de sentir, medo de viver. Porque terá surgido? Como surgiu?

 
Dor, ódio, falta de amor, repúdio, sofrimento, angústia, desilusão, perda, solidão, choro, fragilidade... Tudo pedras arremessadas à fundação do individuo ameaçando-o fazer ruir, numa devassidão que suprime todo o desejo, toda a cor, toda a coragem.
 
 
Tão pouco é preciso fazer para afastar o medo, mas tanto mais o faz regressar. Desequilíbrio de ações que se traduz num absurdo duelo entre o passo em frente e a rendição figurativa à posição fetal.
 
 
Rosto que te toldas perante o medo
É de um abraço que precisas?
Um beijo talvez, ou nada quem sabe
Ofereça o pobre aquilo que não tem
Porque gozas tu coragem o medo?
Tu que estás só, ele que tem tanta companhia
Eu, tu, ele, nós, vós, eles - todos
Todos temos medo de algo, medo de ter medo
É isso o medo - somos nós!


In Letras do Olhar 06 de Junho 2014

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Dia cobardemente perfeito

Eis chegada a hora. Coragem!? Coragem não, cobardia sim... Julgara a coragem mais difícil que a cobardia, quando o oposto se prostra perante mim, numa dor sem refúgio!
 
Preciso, tenho, devo... Não sentir, não ver, não ouvir... Encerro os olhos, tapo os ouvidos, fecho a boca... Não vejo, não ouço, não falo...
 
Nada, mesmo nada, não digo, escuto ou deslumbro o que quer que seja. Vazio, só isso, apenas o que preciso em contra posição ao que desejo. Desconstruo tudo em meu redor e só aí julgo possível, espero possível, desejo possível... Mas o quê?! Eu, o quê sou eu. Chegando o momento de ver, ouvir e falar, se possível estarei lá eu, vendo-me, escutando-me...
 
Dita-me a música: " Que dia perfeito, continua a aguentar-te. Que dia perfeito, os problemas não têm de ir... Fizeste-me esquecer a mim mesmo e pensei que era outra pessoa, alguém bom..." E que sentido faz? Todo, todo o sentido verdadeiramente, pois na preguiça de sentir, deixo-me sentir pelas palavras de outros. Mais fácil, pois no final da música bem o silêncio, no final do livro voltamos a contra capa, na imagem desviamos de olhar, e tudo se desvanece. Então porque por mais tempo que mantenha os olhos cerrados, os ouvidos tapados e a boca fechada, quando os abro volta o que a cobardia deu lugar?! Onde estou eu?
 
És o meu farol e a minha âncora. Orientaste-me na tempestade mas agora prendes-me quando de partir eu tenho. Tão fácil ter coragem, tão fácil comparado com isto. Nem farol nem âncora, tenho de continuar a abraçar a cobardia até que seja tão fácil e aí me saberei corajoso.
 
Mas e agora, qual o meu caminho?! Posso não falar, não ouvir, não sentir, mas penso, penso demasiado. Assim nunca me encontrarei, terei sempre receio da cobardia e continuarei a aguentar mais dias perfeitos como este...