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domingo, 12 de outubro de 2014

De volta ao refúgio

O ser humano nasce e perante ele se prostra um mundo de possibilidades, de infinitas descobertas. Cresce a aprender, a conhecer, a explorar, desenhando o seu mapa e traçando novas fronteiras. De início usa todos os seus sentidos; os olhos para saber o que pretende alcançar, seduzido por cores, movimentos e formas; os ouvidos para entender entre o indecifrável desejo dos progenitores em comunicar, se se tratam de estímulos para prosseguir ou de alerta; os rudimentos da fala que exteriorizam mais de que vocábulos, mas sons de pura orgânica, anunciando a sua presença; o tato e o nariz, ainda presentes pela boca, pois a criança tudo cheira, tudo toca, levando simplesmente à boca.
 
 
O desejo de refúgio, de segurança é superado pelo desejo da aventura,  da descoberta, do alargar de horizontes. O conforto, a comodidade, a segurança do refúgio está lá, bem presente, sempre de braços abertos.
 
 
Cresce o ser humano e a cada descoberta, a cada traço no mapa exponencia-se a sensação de vazio. Desvanece-se o entusiasmo, surgem as dúvidas... A teimosia de não desistir sempre empurrando em frente, trás a dada altura a consciência da dimensão ridícula que cada um na verdade tem. Escala de tempo e espaço de dimensão reduzida, na vastidão do que há ainda por descobrir.
 
 
Os ouvidos nada parecem escutar, a boca fala da mente em línguas que ninguém parece compreender, o cheiro captado é irreconhecível, os olhos fecham-se pois não querem olhar para lado algum, como que impedindo assim a progressão. As mãos essas, as mais insanas, abrem-se em toda a amplitude, num gesto de generosidade e no rosto procuram tapar boca, olhos, ouvidos e nariz...
 
 
Num rasgo de coragem, olhando em redor procura-se o conforto. Sim ele, onde está? Em mares tenebrosos procura o farol que te encha de calor, de energia, de esperança. Segue-o, ele consegue trazer-te de volta, de regresso ao refúgio...
 
 
Encontrar o equilíbrio entre o conforto e a descoberta é a chave do indomável espírito humano. Os que do conforto prescindem, nada farão com a descoberta. Quem não se liberta do conforto, já mais descobrirá o seu lugar e o sem tempo, embora porém possivelmente mais felizes pois a sua dimensão é a que escolhem ter.
 
 
Sai, aventura-te, descobre, arrisca, vive e sente! Encontra o teu farol, mantenho-o sempre presente, mesmo que te surja pelo canto do olho como uma imagem desvanecida e desfocada. Assim que a dor, o cansaço, a saudade, a tristeza surgirem, vais querer voltar ao refúgio!
 
In Letras do Olhar em 17 de Maio 2014

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Morte de uma era

Morreu, ela morreu. Morreu a minha infância. Vítima da morte dos pais, não dos meus, mas dos que me são próximos.

Aquela ponte que me transporta da margem do real para o imaginário, um imaginário que existiu num passado nosso. A ponte que só eu vejo e mais ninguém atravessa. A ponte cuja travessia me leva a um mundo onde mais ninguém existe.

A imortalidade que julgamos ser transportada pelos progenitores esfuma-se num mar de ilusões e na propriedade perdida que reclamo como minha - a infância.

Pelos meus pais sou criança, pelos meus pais sou infantil. Faço birra, choro, rio, digo disparates. Só choro convosco e não julguei algum dia ter de chorar por vocês. Choro agora para não mais chorar. Não vos quero deixar partir, não quero, não deixo, não partam por favor... Não façam como os pais dos que me são próximos. Não vocês não, vivam, deixem-me partir antes. Não não é egoísmo, lembrem-se sou a vossa criança, tudo me é devido, tudo me é permitido. Deixem-me morrer antes, antes que morra a minha infância, porque sem ela julgo-me já morto!

Quero ser criança ainda que a espaços. Quero alguém que me recorde da criança que fui, para que seja agora a criança que desejam. Sou fraco de memória, mas há sensações que teimosamente se agarram como farpas nos dedos incautos, do artesão que esculpe a vida que julga ser a desejada. Acendei-me a memória!

Que dor, mas que dor nos olhos que não são meus, mas que mais parecem transportar a imagem interior da minha alma. Vai um, parte outro, vocês choram e choram. Quem me dera puder trazer os vossos pais de volta, quem me dera que fossem a infância vos fosse devolvida. Mas mais quero não perder a minha. Na vossa dor o meu medo, no vosso sofrimento o meu horror, na vossa angústia a minha ansiedade.

Deste ponto em diante não mais posso ignorar. Ignorar não quero, apenas que me ignorem. Sim quero isso... Quero que me voltem costas quando escolher atravessar uma vez mais aquela ponte que ninguém vê, nem eu sei se ainda lá está. Quero que me esqueçam, porque na outra margem da ilusão, perdido na infância estarei e aí serei eterno...

Não vocês não, vivam, deixem-me partir antes. Não não é egoísmo, lembrem-se sou a vossa criança, tudo me é devido, tudo me é permitido. Deixem-me morrer antes, antes que morra a minha infância, porque sem ela julgo-me já morto!