sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Meditação num trajecto

Sou assaltado por futilidades, só porque sou feliz.

Percorro o caminho de todos os dias. O dia escurece, deixando de o ser, para ser noite. Avizinho-me da placa que me recorda que passarei numa fronteira invisível e que me obrigará a pagar portagem. Barreira essa que tanto me exaltou num passado recente e agora apenas me origina um encolher de ombros e um breve suspirar. No mesmo horizonte de sempre, o avião prepara aterragem.

A estrada é a mesma, os caminhos cruzam-se em sentidos contrários. A solidão do carro é menor que a do avião. Desejo no entanto lá estar, só desejo lá estar, no avião, não no carro. Vou como não quero, no que não quero, no sentido inverso ao que quero, mas vou e sinto agora que sempre irei...

Prossigo no caminho que agora é meu e vejo as pessoas com que me cruzo. O carro que me ultrapassa, o carro que é ultrapassado. A pessoa sozinha, a pessoa acompanhada. Homens, mulheres, portugueses ou espanhóis. A regressar do trabalho, em trabalho, ou em lazer. Todos eles se cruzam com o destino que é o deles. Não o queria por não ser o meu, mas queria viver em alguns desses destinos, para apagar esta inquietação que sempre me assalta, pois no olhar deles não vejo os aviões, mas a solidão de certo estará lá, só que eles não a vêem. Assim a sombra não vê a forma física que a origina, mas eu vejo a sombra!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Onde está?

Escrevi uma mensagem que não era para ninguém, ou assim o faço na minha mente. A ser para alguém, seria para ti. Este dia é de solidão perante o mundo e tudo o que surge para além disso, é uma intrusão na intimidade desejada.

Digo perante a solidão, o que escondo da multidão: Sabes quando tens muito para dizer e ninguém para ouvir? Sabes quando achas que ninguém te é merecedor, porque no fundo ninguém te merece mesmo? No que julgas achar e onde estou agora, encontrarás algo que necessito. Preciso que entregues esse algo para que ilumine este caminho que percorro.

O que eu quero ninguém me pode dar, o que eu tenho, não é meu por não o desejar...

sábado, 27 de novembro de 2010

Ideias Soltas

O meu corpo pertence onde estou, a minha mente, essa pertence a lado nenhum. Nessa orfandade, no lugar onde deveriam existir as raízes da razão e existência, existe um leme que me leva a navegar sem rumo. A âncora aguarda o arremesso, no local onde o corpo e mente se reunirão novamente. Assim se explica esta dualidade!

"Onde está Deus, mesmo que não exista?"

Pela manha conheço o dia, pelo dia espero a noite. A noite espera por mim. Cansado de esperar para conhecer o verdadeiro eu..

O meu pai, o meu pai é a origem, o meu pai é o destino, o meu pai é a origem e o destino. Se não sou o meu pai, se não sou origem, se não sou destino, se não sei quem sou, então não sou para ser nada!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O prazo da fama

A fama não nos faz viver para sempre, apenas faz viver muito em pouco tempo, esvaziando de significado tudo o que resta, numa inconsequência de vida.

Intemporalidades subscritas pelas materialidades circunscritas a uma época, cultura e ideologia... Nada mais que isso!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Rascunhos de um homem

Escrevo por escrever, sem nada querer, sem nada ser, por nada desejar, só por querer. Quando querer é poder, sem nada ser, por nada desejar, mais não sou que uma orgia de prazeres de despropositado egoísmo. Mas então o que sou, pelo que sou, para quem sou?

O melhor reflexo de um homem está no olhar de quem o ama e não num espelho. Olho eu então em meu redor, em busca do amor. Por certo o vejo, por certo o sinto. Amor de amizade, de pai e mãe, de irmãos, de família. Amor verdadeiro, amor de paixão. Em todos eles olho, em todos eles busco.

Tenho agora em minha posse peças, muitas peças. É como se o meu reflexo na água fosse captado numa ínfima parte do tempo, depois perpetuado em vidro e finalmente arremessada contra um muro. Esses cacos, vejo-os eu no amor que busquei. Metaforicamente sento-me, ciente que levará não uma parte, mas imensas partes ínfimas de tempo, até recuar do embate do muro, voltar ao vidro e por fim à imagem reflectida na água. Espero chegar a esse ponto, aí terei uma imagem não nítida mas ainda assim muito próxima do que sou.

Ainda procuro muitos desses caquinhos, até lá olho-me no espelho da rotina quotidiana e não sei que homem sou, mas seguramente sei o que quero ser.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Nascente de pensamento

As palavras ecoam na minha mente e rompem as barreiras do simples conceito, para iniciar um pensamento. Tal qual com uma gota se inicia o rio, que por sua vez vai alimentar o oceano, estas palavras singelas têm um efeito avassalador em mim e tomam uma dimensão sem igual.

Palavras feito frases, frases feito ideias, ideias transformadas em pensamentos. Desta vez a nascente surge sem aviso, sem saber de onde, nem como. Simples, tão simples, superando o primeiro ruído da comédia irónica e abstracta, surge um caminho mental que tem de ser percorrido.

O eco da minha mente devolve-me com as distorções da volatibilidade da memória: "Comer e beber, terei muito tempo para não o fazer mais!" Simples tão simples, numa concepção de fragilidade humana face à efemeridade da nossa existência, mas assente na lógica do presente.

Vejo esta figura no espelho. Curiosas as rugas, curiosos os primeiros pelos brancos no peito e na barba, curioso o baço do olhar. Meu tudo meu e no entanto como cheguei aqui? Quem sou eu e quantas refeições saltei? Sempre a assombração das incertezas, da dúvida do trilho percorrido, sempre o olhar para trás e nunca em frente, sempre...

O espelho já não consegue mostrar quem eu fui, mas a imagem do que serei é nítida. Quem eu sou apenas um apeadeiro sem importância nesta viagem. Quando perante ele me colocar e os socalcos das rugas transmitirem o agreste da vida, quando não restar um só cabelo escuro, quero que me mostre um brilho enorme nos olhos, podendo aí dizer: agora não preciso comer, não preciso beber, mais fome e sede não terei, estou pronto...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Profecia

A criança que fui, o adulto que serei, e agora o que sou? No passado vejo-a, ainda a ouço. Pelas palavras não ouvidas, pelos gestos não vistos, ela disse-me e eu percebi. O que percebi é que um final me esperava, um final do qual não fugirei, mas que não devo procurar.

Assusta-me esse final, já me atormentou agora só me assusta. Resolvo retirar os espinhos que me flagelam e não é sem receio que espero esse futuro, desejando contudo que o futuro nunca venha a ser presente. No passado me ecoa a profecia, no presente esforço por eliminar a angústia.

Resolvo viver com os meus fantasmas. Pergunto-lhes muitas vezes, talvez não saiba ouvir a resposta, até saber perguntarei sempre: o que me é reservado? A pergunta soa-me sempre a deja vu, e ocorre-me outro olival e uma energia sem ímpar: "Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice, não se faça, contudo, a minha vontade mas a tua".

Não estou preparado mas estarei...