sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Pensamentos Outonais

Eis que ali estou na partilha de um diálogo de silêncio. Ele nada diz, eu nada ouço! A simplicidade do silêncio imediatamente é perturbada pelo arrojar de pensamentos complexos. A protagonista da distração, essa desviadora, a alegria ingénua da brincadeira três adolescentes, sem lugar para mais um, sem lugar para mim.
 
Estico as pernas numa posição mais confortável, bebo mais um trago de cerveja, elevo o olhar e antecipo a quedas das folhas que parecem pacificamente manifestar-se pela mão do vento e... E sinto-me percorrer memórias! Já não somos mas éramos. Éramos para sermos mais, mais nós mesmos, numa alegria de insensata simplicidade. O que aconteceu então?!
 
Aconteceu que crescemos, crescemos e não demos contas. As folhas sou eu, o vento os adolescentes. Está por dias, por dias e o meu ciclo terminará, tal como as folhas eu cairei... Queria recomeçar tudo e poder dizer-me que o meu tempo, o melhor até à data pelo menos, é aquele e nele poderia ficar sem mais desejar.
 
Do passado passei para o futuro, sem me dar conta do meu presente. É isso, é mesmo isso, eu não cresci, vivo fora de tempo. Refugio-me dos problemas, quando não tenho nenhum. Não tenho problemas, tenho apenas preocupações. O problema verdadeiro é a forma como lido com as preocupações...
 
Retraio as pernas, mais um trago de cerveja, prendo os olhos e a mente. Num gesto involuntário inicio nova conversa e um calor de Outono invade-me. Ele diz pouco, mas eu ouço tanto!
 
Caminhando uma ligeira resistência debaixo dos pés, emoldurada por um som facilmente confundível com agonia, apercebo-me que calco folhas caídas. Penso por elas, tudo recomeçará a primavera regressará e o tempo será novamente vosso. A minha primavera ainda não terminou e só tenho que me forçar a recordar isso todos os dias.
 
Quando me pisarem estarão a dizer-me que haverá um recomeço!

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Desilusão

Desilusão, que poderosa palavra esta e que avassaladores os sentimentos que desperta.

Reviro-me, contorço-me, extasio-me, enfureço-me! Curiosamente não me questiono, porque sei, sei que é essa a natureza humana. Agora sinto-me, agora tiro os tranquilizantes sociológicos, agora sim, agora abraço a causa do genocídio, porque reles são todos eles, imerecedores, ingratos!

A fúria passa, sinto-me pequeno, invadido por um sentimento de impotência, desespero e solidão. Mas porra porquê?! Os porquês depressa me invadem.

Encontro descanso na insónia, alimento na fome e equilíbrio na adrenalina!

Não deixo ideias por concluir e tudo exclamo. As interrogações, o ódio! Foda-se para todos vocês, nas certezas dadas encontraram as fragilidades, no apoio a camuflagem, no respeito a oportunidade, na frontalidade a mentira... Já não consigo exclamar!

Filhos da puta daqueles que me querem obrigar a ser o que sou!!!...

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sentimento

Sentimento é uma plasticina que moldamos para a forma como queremos que os outros o percepcionem.

Não deixa de ser o que é, mas nunca é o que dizem ver.

Bastaria que deformassem os vícios de interpretação e a plasticina tomaria o verdadeiro sentimento, sentimento esse que busco esconder!

Que bem escondi ele está...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Motivação

Mas que raio?! Que raio... A nascente não secou, o rio é que perdeu o seu curso. O comentário surgiu como que um alerta que a barragem se aproxima perigosamente do seu nível máximo. Tenho de libertar tenho de deixar sair...

Tantos e tantos temas, imensas incertezas, percalços, inquietações me assaltam. Sem desmoronar a frágil construção da integridade exterior, inicio a já habitual viagem e não menos habitual encontro a desculpa: não me apetece fabricar essas palavras, esses sonhos essas emoções. Se ao menos a Fábrica das Palavras, se ao menos...

Sem desculpas, sem compromissos, mas envergonhadamente inicio para descobrir a responsabilidade e o risco de escolher um ponto de partida e um de chegada, com receio de perder no caminho. Ora bem, a Motivação, seja ela,venha a mim a matéria prima das palavras que de sonhos inconcretizados e emoções melancólicas.

O mais engraçado é que espreito os outros e vejo pelas palavras fabricadas um mundo de zombies. Nada de crises, nada de troikas, , nada de desemprego, nada de lamúrias, nada de nada.

Jogos olímpicos, falta de medalhas, habitual resignação e pessimismo português; o que contará mais uma medalha ganha por uma brasileira naturalizada portuguesa, ou um cavalo português montada por uma qualquer outra nacionalidade?! Nem isso, mas ok estamos em Agosto e a fábrica já terminou esse lote.

Férias, falta de férias, as que foram e as que ainda serão! Nada mesmo nada, estranho mundo de zombies. Para quê produzir palavras que ninguém consome, para quê? Mas, talvez não um mas, no entanto também não o concluindo, que não conclui. Ia dizendo?! Ia dizendo nada, não tenho de dizer nada com sentido, não me sinto motivado, não há motivação.

Não tenho motivação. Tento redescobri-la todos os dias. Faço passagem de dias como se faz passagem de anos. Amanhã, sim amanhã farei, sim amanhei realizarei, sim, sim, sem dúvida sim. Não, não, o amanhã passou a ser ontem e nada mudou. Procuro a motivação, procuro concretizar os sonhos, obrigo-me a sonhar. Se calhar deveria estar a escrever sobre a desmotivação, mas não me diz a sombra o que é a forma original. A minha desmotivação é a sombra dos sonhos inconcretizados e das emoções melancólicas, mas agarra-me a algo e é a motivação que preciso para avançar.

Olhos postos na sombra, retiro-me novamente como a fábrica e vejo os meus pares. Atrevo-me a julgar-me um deles e sinto-me integrado...

Sacia-me parte da fome motivacional a "deliciosa ambiguidade". Talvez seja isso, talvez...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Silêncio

Não, não o faças... Fazes e eu não respondo. O que responderia não ouvirias, o que procuras ouvir não te serve.

Agora eu, eu, eu calo-me...

Pudesse ouvir os meus conselhos e o silêncio ecoaria no meu espírito. Não me serve, não me ouço.

Registo a incoerência, sorvo o silêncio do ruído!

E isso sou eu, um ponto entre dois mundos buscando um outro que me leve a traçar uma fronteira...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

o Eu de hoje

Alinhem-se as palavras, quero falar! Ouviram, ouviram bem? O que vos digo? Ah não ouvem... Não ouvem porque não sentem, rejubilam quando enfureço, entristecem-se quando o peso da infelicidade não me pesa nos ombros.

De que me serve a lingua se a movo e nada faz, nada ouço, nada digo?! ocupa espaço, espaço que posso peencher com comida, comida essa que alimenta o corpo, quando as palavras falharam em alimentar a mente.

E isso sou eu, uma enorme ocupação de espaço que não serve para nada que não seja o que ainda não descobri! E isso sou eu...

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Eis que posso parar de começar o que nunca termino... Eis que olho em frente e vejo letras só letras, mas quem as pôs assim, quem? Como que caminhando sem chegar a lado nenhum, letra por letra sinto-me desentorpecer e afloram em mim o que julgava adormecido.

Tão simples, tão libertador, tão simples! Encontro-me agora no centro do tornado, à minha volta tudo rodopia numa ferocidade de movimento mas inaudível. Com clareza chego a parte do todo, apenas pela soma todas as partes. Tão libertador, tão simples, tão libertador! Porque não me permito partir assim?! Porquê? O passo é lateral mas o movimento frontal, as ideias cruzam-se em aparente descoordenação, mas... mas não quero chegar a lado nenhum.

Fui jardineiro, sinto querer ser. Sou filho sem pai saber ser. Sinto não ser o que desejei ser. Conquistei um passado, confundo-me no presente e baixo os braços perante um futuro que sinto não desejar.

Vezes sem conta vi-o cair e ele caía... Agora ele sou eu e caio, como eu caio. Não não quero voar, não não há pesadelo de que me possa evadir com um simples abrir de olhos. Não estou assustado afinal eu sou ele, e ele já era eu ainda antes de ter vindo a este mundo. E o ele antes dele?!

O meu avô partiu ele partiu. "Estás aí?! Devia chorar-te, mas não sinto que precise. Espera vou chorar... Não só ia chorar da mesma forma que se vê um filme, é triste, mas é um filme. É triste mas não estou triste."

 É o meu avô mas nunca o soube ser e agora com a sua boina, pele fria, desprovido de cor e pouca carne abraçando os ossos é um boneco sem ação. Podia ser a criança que pega em ti e te dá a vida possível de boneco. Sim faço isso, já o faço vives a cada lufada de ar que tomo, a cada piscar de olhos, a cada lágrima que fica por derramar. Tudo porque tu és ele, ele sou eu e todos somos o mesmo.

Como te guardo na mente, onde falta carinho não há ódio, apenas talvez frustração por não me teres deixado simplesmente lá estar. Penso em ti e não tenho de ver a foto assinalando a tua morada. Estranho mas não, penso em ti e vejo-te alegre sempre tu mesmo, sempre um estranho que enquanto e que me fazia tremer de medo em fechar os olhos, com receio que a cada abrir te afastasses até que desaparecias. Sabes que mais?!

És importante para mim e pensando em ti, na forma digna que escolheste partir, no beijo de despedida e a tristeza não é do filme e para ser eu, para ser ele, e para sermos os três o mesmo, sinto que não ficará lágrima por derramar.