sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Existência anónima

Para alguns uma arma impercetível, algo que captura o bem talvez mais precioso - a Alma. Para mim apenas uma desculpa para explorar, para me aproximar, para perscrutar emoções genuínas em pessoas de carne e osso, no cenário que melhor conhecem, as suas vidas quotidianas.

Estranha intrusão na vida alheia, apenas como simples forma de escapar destas quatro muralhas em que encerro a minha própria existência. Mergulhando na dor, no esgar do olhar, nas subtilezas dos gestos, descubro uma estranha tranquilidade.

Que pacífico, não falar, não escutar, não refletir, existir sem qualquer forma de diálogo. Procurar a invisibilidade para realmente existir. Circular entre desconhecidos e captando a energia, tal qual colecionador captura as borboletas. Por vezes frágeis, por vezes monstruosas, por vezes belas, outras vezes dissimuladas... Tudo é diferente, tudo necessita ser captado, tudo tem o valor.

Com o álbum preenchido na mente, tomo o caminho das quatro muralhas e da experiência da energia sorvida, desperto lentamente do coma e sobrevivo mais um tempo, quando o desejado era mesmo viver!


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Asas e sonhos

A vida que sonhamos e a vida que temos. Separação entre realidade e sonho...

Hoje o dia trouxe-me o bilhete para a viagem e não entendia o porquê. Agora que a inicio vejo-me forçado a fazer uma pausa, por a compreensão me ter encontrado... A dor da recordação da partida cuja distância dos anos, dos meses, dos dias, horas, minutos, segundos, de todos os instantes que meço e sinto, não apaga ou atenua, inunda-me sem aviso. Pelo amor da mulher que partiu, da mulher que fez em grande parte o homem que sou hoje, permiti-me dizer a quem o devo, de dizer com toda a profusão do meu coração, de dizer: amo-te...

É tempo de retomar a viagem...

Porque não se transforma o sonho em realidade, para que a vida tome a dimensão desejada? É a realidade que aprisiona o sonho. Sonho porque tenho tudo para o fazer, sonho porque posso sonhar, e sonho simplesmente porque realmente não o sei viver.

O sonho dá-me as asas que me permitem voar, elevar-me e contemplar o meu mundo na segurança da soberania das alturas. A realidade aprisiona como um pássaro na gaiola. Tenho as asas mas fico confinado ao espaço da gaiola. Da gaiola não existe a noção de elevação...

É na verdade tão simples, mas tão simples. Um pássaro toda a vida vive enjaulado. O pássaro tem asas, o pássaro voa. O pássaro por natureza deveria voar, homem por natureza deve sonhar. O pássaro na gaiola não pode voar, o homem poucas vezes se permite viver os sonhos...

Um dia retira-se o fundo da gaiola e o pássaro teme; um dia o homem tem a possibilidade de viver o seu sonho e teme. O pássaro que tem asas, que deveria voar fica nesse momento assustado com medo das alturas, pois julgou que as asas foram feitas para sonhar e teme cair. O homem que deveria sonhar e viver os seus sonhos, fica nesse instante com medo de voar, pois julgou que as asas eram feitas de sonho.

Pássaros com medo de alturas e homens com medo de sonhar... Tão simples, tão real, tão meu...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Lampejos sem ternura

Desassossego que me apodera
Inquietude com que me aprisiono
Nada que eu quisera.
Sim quero, sim questiono.

Solte-se a lágrima
Aprisione-se o sorriso,
Tragam outra vítima
Para bem do meu juízo.

Fere a crueldade
Que abraça a dor tirana,
Agonizante é a verdade
Obscura e soberana.

Sem ternura cuspo estes espinhos que me rasgam coração e alma!




Refúgio

Triste, tão triste. Só, tão só. Vazio, tão vazio... E nem sequer melancolia é!

A quem confiar? A quem desabafar? Quem procurar? Sinto não existir, sinto não ter, sinto tristeza, solidão, vazio.

As lágrimas irrompem-me pelos olhos num fluir que não leva a nada nem a ninguém. Ninguém lá está que com a confiança e a gentileza de um gesto, seque as lágrimas e gentilmente me acaricie na bondade de um abraço protetor.

Preencho a solidão com o isolamento e a tristeza com melancolia. E assim se ergue uma e outra vez; assim toma forma o refúgio.

Refúgio para ser quem sou, sem ser o que sou.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Pegada surda

Ouvem-se os passos mas não as pegadas
Vemos as pegadas mas não os passos
Ouvem-se quando chegam e vêem-se quando partem
Assim é marcada a vida das pessoas.

Pudesse eu ver-te na fogosidade da chegada
Audível fosse a tua partida na eternidade da saudade
Enganos sensoriais ininterruptamente discretos
A indiscrição do racional moldando a emoção.

Assim sou eu
Ouvir para ver, ver por ouvir
Espontaneidades de enganos
Indecisão de sentimentos.

E o que sobra?!

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Ensaio

A vida não tem ensaios. Ou terá?!
Julgo não ter, mas procuro que tenha.
Evito o sofrimento, sinto a angústia!
Procuro a alegria, encontro a ansiedade!
Ensaio o viver e vivo o ensaio.

Mas será?! A vida é um ensaio.
Já sei,
Já senti,
Já encontrei,
Já tenho...
Sei, senti, encontrei, tenho o que quero,
O ensaio terminou e mais não tenho vida.

Não tenho não há. A vida?
Preciso de mais vidas.
Morro esta e outra vez,
Mas não vivo o tempo suficiente.

Espiral emaranhada
Causa ou efeito,
Destino ou arbítrio.
É tão complicado,
Tão complicado...

sábado, 26 de outubro de 2013

Anti matéria

Desejos do passado, insatisfações do presente, irrelevância do futuro. Poderá significar fazer do passado o atual eterno, perpetuado a um tempo que existe para ter existido, mas não para vir a existir?
 
Sou a partícula que oscila entre dimensões. Não tenho importância, não tenho massa suficiente para interessar ao buraco negro que parece sugar tudo o resto e todos os outros que insisto gravitar em redor. Assim percorro livremente as dimensões do espaço, do tempo, na certeza da prisão do ostracismo. Não pertenço a nenhum lado, não pertenço a nenhum tempo...
 
A serenidade que a espaços e a tempos me visita, é como uma oferenda de uma existência primitiva. Na escuridão dos olhos fechados, na consciência da respiração, no embalar do batimento cardíaco, na música dos mecanismos mentais... Aí, sim aí nesse espaço, nesse tempo, aí sim a minha matéria cresce, avoluma-se e sinto-me sugado. Sou puxado a luz irrompe pela paz da escuridão, a respiração inquieta-se, o ritmo cardíaco sufoca e o cérebro grita ensurdecedoramente...
 
Aí a partícula que ganha massa, torna-se igual às outras. Ocupa um espaço, tem um tempo, o tempo certo. Só presente e futuro. Um novo nascimento em que as dores ficam do lado da nova vida e não de quem concebe.
 
Cambaleando de um sonambulismo profundo, encontro alguma paz e recomponho-me. Sou novamente o que sempre fui, o que nunca existiu, e o algum tempo, e o algum espaço. Sufoco novamente no desejo de viver no passado, no que ainda agora era presente, mesmo sem saber que o encontro mais facilmente no futuro.