domingo, 10 de janeiro de 2010

Comédia de uma vida (i)real

É verdade que adoro mimo e não é menos verdade que gosto mais de dar do que receber, só que, só que por hora, é de receber que procuro. Arrumo a questão com um ligeiro pormenor, no trajecto para o obter tenho de me expor e assumir o meu fracasso para quem não o queria fazer... Doloroso, mas necessário e sei que me trará todo o carinho que necessito. Tudo se precipitou e o habitual gozo terminou num silêncio carinhoso.

Engraçado como tudo muda tão pouco em tanto tempo. Recebem-me em casa num papel que não é deles, o papel de pais. Talvez seja de maior responsabilidade, porque foi por eles escolhido. Recordo este episódio entre muitos de bons momentos que lá passei. Tudo começou no fenómeno que eu designei por Casalfilia e do qual voltarei a falar.

Finalmente uma comédia poderia dizer, mas... Mas que é a minha vida para além de uma comédia?!

Não estava a ser sarcástico, não desta vez. Venham os factos e avaliação surja naturalmente.

Penso: Porque não?! Um simples jantar, a melhor das indumentárias. Olho para o espelho e penso que já poderei falar na terceira pessoa tal qual um jogador de futebol, quando mais não fiz que agarrar a roupa em cima da cadeira.

Eis que se inicia a estória e em vez de "era uma vez" permito-me utilizar: eu, os papás adoptivos, uma grávida, um afinador de pianos e uma gata castrada...

Debilitado da boca (não mastigo mas falo e bastante), não como mas bebo, bebo e bebo. Chego lá bem mais depressa que habitualmente... O riso é grande, a malta fomenta. A Maria João Pires gosta de brasileirinhos mais novos vestidos de branco; no Japão é que se afina bem pianos; a gata anda fodida que não se lambe; Bla Bla Bla mas está muitos bom.

Alto vou ver o Mamma Mia, finalmente! Sofá enorme e o elenco repete-se: a grávida, o afinador de pianos, os papás adoptivos, a gata castrada que aliás não me deixa vá-se lá perceber porquê e claro, EU. A minha avaliação do filme?! Bem à beira disto o Música no coração é um filme de acção...

Second act. No one mess whit zoan... O espião israelita que quer ser cabeleireiro. Primeiro o Project blair Witch, seguido pelo Miss Sun Shine... Lá diz o povo: não há duas sem três. É verdade adormeci, não resisti, tamanha era idiotice.

Diverti-me muito, tranquilizei a alma, anestesiei a boca e fodi um pouco mais o fígado. É uma comédia, ninguém tem de se rir porque a vida é minha ainda que os personagens saiam da tela de vez para vez...

Tudo termina com os papás, a grávida, o afinador de pianos e eu com uma gata castrada deitada no meu colo a transmitir calor intenso ao meu mais profundo ser... Traduzindo: a aquecer-me a merda da pila como o caraças quando queria era dizer CARALHO...

sábado, 9 de janeiro de 2010

Quando eu morrer

Retrato bem conseguido da mais lírica devoção de uma mulher ao seu ente mais querido, desempenhando um papel que sabia lhe caber desde o dia que entrou de branco na Igreja.

Marca uma intemporalidade que deixou de existir na realidade quotidiana. Existem sim os sentimentos, a perda, esmagamento da simplicidade da morte exposta aos rigores dos rituais, da educação e de um amor que não encontra significados nos dicionários actuais.

Dá ainda uma perspectiva única da dor sentida por os outros, quando mais não é que um fardo. Tem um final que encerra uma lição essencial, a minha lição. Gostaría de dizer que sinto que a mensagem é que a vida prevalece perante a morte, mas a minha mensagem encriptada é que morro e a vida prossegue para além de mim. Não me assusta, porque morrer não é uma consequência mas uma etapa.

Adoro os espaços, a luz difusa absorvida pelas cores amorfas, a recatez das palavras pronunciadas a um ritmo de envergonhar, a vagarosidade dos movimentos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Sonho

Miquinhas um ano para a década, hoje faz que me deixaste. Deixaste a todos mas no entanto a mim foi maior o abandono, e na verdade nunca ficaste tão próxima de mim. Hoje falas e não te ouço, sei que me compreendes, mas não te ouço. Hoje quando sonhar, aguardo a tua mão no meu ombro e o calor do teu sorriso na minha mente, aí saberei o meu caminho. Não me faltes hoje...


Quero ter um sonho
Não, hoje vou ter um sonho
Será sonho que não é sonho
Não vou ter, mas quero
Quero que seja real.

Fecho os olhos
Ouço a respiração
Cruzo o ponto sem retorno
A passagem é suave
As sensações imensas.
Não há o acordar penitente
Não há o trânsito caótico
Não há o sorriso forçado
Não há a explosão contida
Ouso julgar não haver o que há.

Há a opção, a escolha
Do quando
Do com quem
Do quanto
Do como.

Sou produtor
Sou realizador
Sou protagonista
Sou guionista e...
E não faço nada!

Tudo está conjugado
Tudo flui numa proporção que é só minha
A partilha é egoísmo
Não há dor porque não há prazer
Não há nada e há tudo.

Tão simples o meu sonho
Simples na complexidade
Fecharei os olhos
Ouvirei a respiração
Os olhos não se abrirão
A respiração ficará sempre igual
e aí sim, será REAL.

"se um único
sonho
de cada
homem
se tornar
realidade
que outros
homens
acordarão
dos seus
sonhos?"

Voz do Passado III

Desisto de perscrutar a minha mente, sei que percorri este percurso para quê então gastar as solas da memória?! Sento-me na beira do caminho, descanso as pernas que são as emoções e baixo os braços feitos vontade. A forma da pegada coincide ao milímetro com o meu pé, pé descalço, que a mente não se veste, não se calça. Já cá estive, pisei demasiadamente, não tenho de pisar novamente, basta que me sente, sinta e veja o rasto das pegadas que me antecede, no sentido da linha que distingue o último passo que julgo ter tomado, e aquele que desejo tomar. É isto que senti, é isto que agora vejo:



Mergulhei de cabeça. Senti o meu corpo gelar e o meu espírito efervescer. Conflito de sensações, desorientação de sentidos. Egoísmo misturado com fragilidade.

Não me apetece falar, mas apetece que me ouçam. A percepção de idealismo reside no meio, simplicidade constante apenas nos refúgios que nos acolhem. Não estou por convite, estou por encarceramento. O guarda e o encarcerado são um e um só, EU.

Afinal falo mesmo, afinal não me ouvem. Precisarei mesmo que me ouçam? Tanto me faz. A civilização, as multidões estão aqui, eu estou bem lá longe, figura indistinta distorcida por ondas de calor num horizonte que me parece transportar para aqui, quando no fundo caminho para longe. Só espero não deparar com outra multidão.

O risco de explodir é menor que o de implodir. Num esgar de consciência sinto um grito crescer na garganta. Espero o terramoto de emoções tal qual se espera o estrondo após o relâmpago. Pode tardar mas surgirá e por muito preparado que estejamos, o grito da alma não será contido, porque a surpresa não é tudo.

Mas estou bem. Não sinto o mar, mas sinto a sua energia. Não sinto o vento, mas sinto a sua carícia, não sinto o solo a desaparecer rapidamente debaixo dos meus pés, mas elevo-me no ar...

Pelo menos sou livre, pelo menos...

WELLCOME TO MY WORLD, PLEASE DON'T CROSS THE LINE

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Âncora afundada

Exercício continuo e sem fim, nos intermináveis kilómetros rotineiros ao volante, questiono-me sobre os significados, a âncora de valores e objectivos na minha vida e na margem que me dá de manobra sem ficar à deriva.

A âncora afundou e não sei por onde navego. É neste pensamento que regresso a casa após mais uma tentativa de retomar o rumo. Sou despertado da dormência a que o automatismo da condução me botou, pelos farois de um automóvel directamente a mim. Verifico e vou na minha faixa ele tem que retomar a dele. No processo de corrigir a direcção que se lhe espera, o outro condutor ilumina um memorial que me é familiar...

Afinal distraído ia eu, o meu rumo não era na direcção que eu ia e ali ao lado estava "algo" que me recorda exactamente isso. O memorial cresceu em dignidade e no lugar de uma tragédia ficou um significado que é meu, e de todos nós...

"Significados", Agosto 2008


"Agosto terminou... Apelidam stress pós férias e porque não?! Se há o stress pós guerra, porque não haver um stress pós qualquer coisa?! A luta por um estacionamento, por um lugar para colocar a toalha, por uma cadeira na esplanada, por mesa no restaurante...

Perdão, vou voltar atrás, ou avançar, nem sei... Terminou o Verão, encontramos motivos para nos queixarmos de tudo: é o trânsito que aumentou exponencialmente, a noite que chega rápido, as miudas que andam mais tapadas (o que bem vistas as coisas é uma vantagem face ao que por aí se vê), o chefe que implica mais que tudo, etc.

Regressando ao presente... "Ontem" queixavamo-nos do estacionamento, blaaa blaaa blaaa, "hoje" é do trânsito do blaaa blaaa blaaa. Queixamo-nos, queixamo-nos queixamo-nos. Questiono-me porque, qual o significado?! Há algum?!

Sem respostas precipito-me em perspectivar e referenciar com quotidianos e vidas. Finalmente chego onde queria, posso esquecer o que escrevi porque significado é agora.

Estória, desculpem história, anónima, de homenagem, de partilha. Não termina mas começa... Sábado de manhã, estamos já atrasados e a viagem até ao restaurante ainda leva 3 horas com paragem em terras de Guimarães. Trânsito, muito aparato, manta térmica, muitas ambulâncias, bombeiros, polícias e curiosos como abutres assinalando uma carcaça... Vê-se uma poça de sangue, uma moto tombada e um par de botas: olha um cadáver! Indignação, consternação e rapidamente o objectivo passa a ser reunir o resto das tropas para o ataque ao "nariz do mundo".

Podia terminar aqui, não faria sentido, não tem de fazer, mas faltaria exorcisar fantasmas. Um dia da semana, a caminho do trabalho, reparo numa cruz improvisado no local do acidente. Dia seguinte velas. Segue-se uma foto de um jovem muito sorridente (a tragédia passa a ter um rosto), choca. Mais um dia, flores; outro dia lenço motard... Os dias passam, sucedem-se as homenagens... Passou um mês, a foto foi trocada, os gestos permanecem.

Este rosto, este jovem, este filho, este irmao, este namorado, este familiar, este amigo, este conhecido nunca mais se queixará da falta de lugar para estacionar, do trânsito e do todo o restante blaaa, blaaa, blaaa.

O significado, a perspectiva dos meus problemas é recordada todos os dias quando passo neste memorial e à minha maneira faço a minha homenagem de gratidão porque cada bocadinho de ar que me entra nos pulmões é uma dávida.

E os vossos significados?"

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Arca do Tesouro V

Como eu gostava de ser poeta... assim começa um poema de Manuel Quintella e Sousa!

Tropecei neste livro e achei que precisava de o ler. O livro esse, "Dias sem Sol", é muito mais que isso. É a alma de alguém. Por ele sei que o poeta ficou orfão ao 5º dia, quando Deus só descansou ao 7º. Sei que, perdeu a rosa com quem se entrelaçava ao vento, com quem fazia amor metafisicamente, a quem deseja todos os dias que a morte o leve para junto, a quema cama é o mesmo que uma campa, tamanho é a solidão e a frieza.

Sinto invandir a vida dessa pessoa, como se o futuro estivesse retido no presente que já é passado. Página a página, poema a poema, palavra a palavra, sentimento a sentimento, sensações familiares, medos únicos, ansiedades muito minhas. A alma roubada é a minha afinal.

Quem me dera ser poeta e mandar aos 4 ventos o que me corroi internamente e com isso conquistar a paz que teima em me atormentar.

Empreste-me o poeta a alma e diria por palavras que não são minhas, mas que possuiria por próprias:
in Dias sem Sol, "Sinto-me Só"

"Sinto-me só, abandonado,
Como aquele que perdeu o autocarro,
Sinto-me como o mendigo
Que escolheu o local errado,
Sinto frio, vindo de dentro,
Sinto aquela mão,
Que não me dá alimento,
Sinto que vivo, por viver,
Sinto que vejo, só por ver!
Sinto que sou o palhaço
Sem circo, sem público,
Sinto que me esgoto,
Que me gasto,
Sinto que só falo
Quando estou só,
Sinto que me vejo
E até a mim meto dó,
Sinto que sinto
O que já não sinto,
Sinto que já estou por tudo,
Sinto que falo
Só porque não sou mudo
Sinto isso tudo,
Mas matem-me, ao menos,
Porque não quero estar só
no Mundo!"

Manuel Quintella e Sousa, com a tua alma entendo melhor o que dentro de mim transporto e por isso o meu muito obrigado, ao poeta, ao filho, ao amante, mas acima de tudo ao homem...

domingo, 3 de janeiro de 2010

Dom

"Fizeste-me acreditar que era uma outra pessoa; alguém bom..." Renego-te, devolvo-te, não foste meu de o querer... Equilíbrio de forças, magnetismo de energias, compensação de sensações. Significados, definições:

"Espiritualmente, uma perda significa sofrimento, não revolta. Espiritualmente, quando atrais uma perda, a única coisa que deverás fazer é chorá-la. Fazer o luto dessa perda. Deixar partir. Com sofrimento, com dor. A dor do desapego vai fazer-te ficar mais sensível, mais conectado com as tuas emoções. Vai fazer-te ficar frágil, com a emoção à flor da pele. Vai fazer-te ficar com a sensibilidade aguçada ao máximo. E ter a sensibilidade aguçada é ter o Dom.
Resumindo: quando atrais uma perda é para ficares mais sensível, mais frágil, mais intuitivo, e é para exerceres o Dom. Com isto podemos depreender o seguinte: se o Universo apenas rearmoniza o que não está harmonizado e se quando envia uma perda é para que fiques mais sensível, quer dizer que o que estavas a emanar era o oposto. Provavelmente estavas a emanar a desconexão absoluta, a defesa, a racionalização e a necessidade de ser forte. Tudo coisas contrárias ao ser espiritual."
 
Sim a sensibilidade está cá, aguçada como o gume de uma lâmina de aço Victorinox que dilacera o meu âmago, mas está cá pelo Dom e não o inverso, has suposed to be. Sou um comprimido, um laxante de emoções, o meu papel resume-se a de uma antena, por mim surge o drama, a comédia, o optimismo. Por mim sentem, sem eu sentir.
 
Assombrado pelo espírito que me tem como hospedeiro, mas que de outros necessita para propagar a sua doença. Se doente é sentir, acordar, não renegar as emoções, então vírus que és espírito, não me assombres mas sim contamina-me.
 
Porque buscas aqui o que sou?! Porque segues mapas se tens à tua frente tudo o que precisas para lá chegares?! Senta-te, volta-te para o mar, sente a maresia no rosto, o sol perfumando a tua pele, agitando os teus cabelos com o calor que o vento sopra pelo teu pescoço. Enterra as mãos na areia, a sua rugosidade o ruído com que cada grão beija os teus dedos, enquanto caem no solo que é seu. Põe-te de pé ouve a voz que te chama, caminha segura, não osciles nos passos que sabes têm de ser dados, se sou eu que procuras, sou eu que encontrarás.

 
Estou conectado, sim estou. Perdi, sofro, estou revoltado, sim estou. Mas quero viver, quero sentir, quero apagar a revolta, rearmonizar o meu ser, porque também eu já estive sentado, também eu já segui a voz... Pelo que tenho a ganhar e não pelo que perdi, é o caminho que traço... Fácil fazer sentir, difícil fazer-me sentir.
 
Invade-me a melancolia quando da minha voz nada mais conheces que alegria e porém nas palavras julgas encontrar o contrário do que de mim ouves. Se assim o é, serei apenas um texto prostado na escrita, na fala? Paciência, certezas?! Amotino-me só de pensar num desaforo que põe à prova a convicção dos meus gestos, gestos nos quais participam mais do que palavras.

Nego-me à minha essência, sou apenas uma antena, um meio de receber a energia do Cosmos, estou aqui não é para mim, não é por mim. Por quem seja, por quem necessite, por ti, pelo mistério, pelo enigma, pela dúvida que te arrepia na incerteza que são tuas estas palavras. O meu luto nunca está feito, porque a morte que choro, não era nascido e já tinha ocorrido, essa não é tua de reclamar, mas sim são tuas as palavras e os gestos. Reclama-os ou deixa-me perecer uma vez mais, mas não te fiques pelas convicções ou falta delas e aceita, aceita-te, aceita-me...