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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Alegoria da Caverna

"Sabes alguma coisa de filosofia? Podes dar-me explicações?" Foi este o ponto de partida para uma longa viagem nos confins do meu quase subconsciente.

Pelas minhas contas estava a sair da minha sexta hora de surf no fim-de-semana. Foi extenuante, desgastante, mas imensamente compensador a todos os níveis. Um sentido de rendição física e mental à força dos elementos, do mar, da água, do ar que pesa a sair dos pulmões, da gravidade que nos cola ao chão e torna o simples acto de levantar um pé após o outro, uma manobra similar aos passos do Armstrong na lua. Vindo do nada, o miudo dispara estas questões e ainda para mais na minha direcção.

Teve o mérito não de me trazer à realidade, mas de me lançar numa torrente de pensamentos. imediatamente uma imagem se compôs na minha mente. Escuridão, humidade, gemidos humanos, sons horrendos, ou talvez apenas trevas.

A percepção que temos, que tenho, é uma visão distorcida da realidade. Distorcida pelo que nós fomos, pelo que somos, por quem e pelo que nos rodeia. Assim sendo cada qual deveria ter a sua visão única, impossível de contrapor com todos os seres com que nos cruzamos. Sinfonia visual de figuras imperceptíveis.

Haja alguém que esfregue os olhos, se levante e enfrente a luz de frente. Com ela chegará a forma genuína, os contornos físicos... Se não for partilhada na coragem, será uma clarividência isolada que nada mais significará que qualquer uma das outras visões.

Se Platão e Decartes, por intercessão divina se encontrassem, diria o último: "Não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis!"
Ainda nem cheguei à fase de perceber quais os meus problemas, o meu demónio enganador não me permite...

"Não puto, não percebo patavina de filosofia. Fala-me é daquela esquerda que entrou e partiu o coco aos avec's armados em burros..."
Há coisas que só devem ser partilhadas no escuro da nossa solidão!

P.S.: Agora teria respondido: "Puto lê o livro O Mundo de Sofia."

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Unicórnios e Moínhos de Vento

Porque terá o dia de começar quando acordamos? Decidi que o meu começa quando me deito. Assim, no último dia, neste dia, pouco antes de fechar os olhos, regressou à mente um pensamento de um passado recente: "Por uma vez queria ter algo mais na caixa de correio para além de facturas a pagar e publicidade!"

Entre livros, sacos de compras, mochila do ginásio e chaves, vejo-me forçado a "carregar" a merda das contas e publicidade de coisas que me querem fazer acreditar que necessito.

"Já passou mais um mês?! Pensava que tinha aderido à factura electrónica." Carrego no elevador, deixo cair papeis, apanho-os; cai outra merda qualquer, não importa o quê, mas raios me partam se não é alguma entidade que está a pregar-me uma partida.

Empurro a chave pela porta, consigo rodar qual acrobata de circo a segurar tudo nos braços. O tapete já sabe o que o espera, lanço tudo sem apelo nem agrado por cima dele. Fecho a porta, descalço-me, respiro fundo: Estou em casa.

Video porteiro tem aquela luzinha que assinala que alguém tocou. Quem será?! Não sejas parvo (penso eu na cama), deve ser algum fiscal para ver os contadores ou o gajo da TV Cabo.

Há aqueles que perseguem um unicórnio toda a vida e há os que contra moínhos de vento lutam. Não sei qual o meu unicórnio e não sou nenhum nobre que no último dos sacrifícios abandona tudo quanto tem para combater o mal onde ninguém o encontra.

Sem moínhos e sem animais mitológicos, preferia ser o Sancho Pança, que seguiu o seu mestre num sonho e numa batalha que não era a sua, ou seria?! Eu sei onde quero que a vida me leve, terei a coragem de a seguir?

O meu dia está mesmo mesmo a começar e eu tenho tanto sonoooo...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Final de uma adopção

Com enorme satisfação recebi as novidades, uma alegria pura e contagiante. Antes disso... Foram alguns anos de companhia, de mimos, de intencionalidade parental, de uma presença marcante. Durante muito tempo foram papás adoptivos, oferecendo conforto e tranquilidade, para além de comida e cerveja claro...

Não me permito alongar muito mais, hoje é marcado o fim de um círculo deixei de ser filho adoptivo, a notícia foi-me dada como estando um mano a caminho, ao que prontamente disse que preferia ser tio e não irmão. Com comoção viro a página, com a certeza que fui um bom tubo de ensaio para os desafios que estes jovens pais terão de enfrentar nesta aventura que se chama paternidade.

Não resisto a partilhar um dos emails que lhes enviava...

"Queridos pais adoptivos:

Ontem apesar dos vossos receios, portei-me muito bem no Azurara Energie 2008 e deitei-me nao era muito tarde.

"Aquilo" estava muito cheio, com meninos na generalidade mais novos que eu. Alguns devem ter comido coisas estragadas porque vomitavam muito, logo não toquei na comida...

Outros hoje não vão comer sobremesa à refeição, porque se portaram muito mal e beberam muito. Eu bebi pouco...

Havia ainda quem se estivesse doente, mas bastava tomarem um comprimido que ficavam logo curados, com vontade de dançar e com muita sede. Felizmente não precisei de nada...

Por todo o lado vi a malta a destruir cigarros. Felizmente que sabem que aquilo faz mal. Estranho é que depois queimavam umas barras cor de chocolate e enrolavam novamente. Tinha um cheiro esquisito. Acho que fiquei enjoado, não como mais chocolate...

Mas o que mais gostei foi de ver muito a fazer bulhas na areia aos pares e no final ficavam abraçados, penso que por causa do frio. Não brinquei com ninguém para não sujar a roupa...

Estavam a dar palhinhas, mas eram muito curtas para beber. Na embalagem das palhinhas tinha uma imagem que mostrava que era para meter no nariz, deve ser nova moda. Tentei mas não gostei, magoava..."

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Nome de Código: Tuga

Foi escrito já algum tempo mas continua muito actual, se haverá algum dia que o deixe de ser...

Podia ser uma frase de incitação a um anúncio publicitário de um desodorizante, que não vou referir o nome por razões óbvias... Não me lembro do nome...

Mas então e se um desconhecido te oferecer flores?

1) Pedes-lhe também uma jarra para as colocar
2) Pensas: finalmente o esforço do ginásio está a dar resultado, o rabo nestas calças e as mamas neste decote ja fazem estragos
3) Gritas: socorro acudam-me estou prestes a ser atacado por um freak
4) Olhas para o lado e finges que não é contigo e se não resultar dizes que não tens trocos
5) Ainda não pensaste sequer numa situação dessas.

Pois é, perdi algum tempo a pensar nisto e a minha aposta de maioria de respostas não é animadora.

Façam o exercício ao contrário e coloquem-se no papel de quem oferece as flores. Pensem o que vos motivaria, pensem na coragem que requer abordar alguém. O que custa ser original, ter piada, tocar nos pontos certos e porquê o fariam. Por causa de um simples sorriso, na forma como ela afasta o cabelo da frente dos olhos, pelo olhar...

A minha frustante revolta aumenta quando penso na mulher portuguesa, que eu energeticamente designo por TUGA. Odeio quase tudo na postura da TUGA, quase tudo. A mulher TUGA nunca usaria a primeira resposta, NUNCA!

É viajar um pouco para perceber a diferença que é muita...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Onde Vais???

"Onde vais?" Recordo-me eu de ter ouvido e pensei: onde fui?!

A necessidade de impressionar o chefe, não pela relação hierarquica, mas pela pessoa, pela experiência, pelo trajecto de vida saiu hoje abalada. Digo: cuidado que escorrega!

E saio disparado para o carro tentando evitar a chuva. Contorno a traseira do carro e dou o tombo da minha vida... Ouço: "Onde vais?!" Tão depressa caio, como me ponho a pé e um estrondoso FODA-SEEEEEEEEEEEEEEE ecoa pelo mais profundo do meu ser interior. na boca só se vê um sorriso.

A cena já é lamentavel o suficiente e é agravada por ter sido assistida por dezenas de pessoas, que viram a sua refeição ser coroada com um idiota que se espalha ao comprido numa merda de uma poça. Olha e penso: "QUE CARALHO DE MERDA, nunca mais cá venho almoçar!"

O balanço mostra um cotovelo toda amassado, todo o corpo do lado direito dorido, mas pior que tudo, e isso não há soro fisiológico nem betadine que cure, a dignidade destruída...

Chego ao gabinete, oriento um polo, umas calças de trabalho da empresa 4 numeros acima; meto papel para nao sentir a humidade dos boxers molhados; respiro fundo e penso em trabalhar e passar as 4 horas que me faltam para o fim-de-semana. Levanto-me e o gozo total, desta vez pelas calças. Pareço um palhaço, dizem eles. Penso para mim: PUTA QUE PARIU hoje não é mesmo o meu dia!

Caso para perguntar: "Onde vais?!" Ao que responderia: "Se soubesse, se soubesse..."

Onde vais?! Poderia simplesmente ter terminado assim, mas não...

Começa o meu dia finalmente, são 18h! O habitual berro interiorizado ao cumprimentar os vigilantes de serviço e passar o portão das instalações.

Sucedem-se as ideias do que fazer. Apesar de magoado fisica e mentalmente nada me pára, afinal é sexta-feira e eu "estamos eléctricos". Eis que reparo na indumentária... Calças com faxas luminosas, risca ginásio, risca qualquer lugar social... Porquê não sei.

Amuado recordo-me que posso ir levantar novo livro; esqueço-me da indumentária e entro alegre pela biblioteca dentro. Olhares cruzam-se e apontam num só sentido, espera lá é em mim. Procedimento como fiz várias vezes e olham na mesma. O livro que quero está requisitado. Começo a ficar irritado, resolvo "atacar".

Kafka tem?
B: Isso é?
Literatura checa.
B: É para si.
Não é para o meu filho. Ainda só lê esta literatura ligth mas qualquer dia já lê o mesmo que eu. (esta confesso não disse)
(em vez disso) Sim, "O processo" de Kafka pf.

Ainda me recordo de tecer algumas considerações do "metamorfose" que "odiei mas que apercebi no final que me tocou de forma única e inexplicável, mesmo repugnante e que penso ser essa a vontade do autor". Podia ter falado na traição do amigo que publicou os 4 livros após a sua morte contra a sua vontade... Não foi preciso, o que aparenta não é - ficou bem evidente.

Corrida "forte a forte", excelente música, o corpo não reclama. Termino, encho os pulmões de ar, de mar, de iodo e sou brindado com um fabuloso por-de-sol e ninguém com quem partilhar. Melhor assim...

Igual ao por-de-sol que a "coisa insecto" via do seu quarto e que lhe trazia significado!"

quarta-feira, 31 de março de 2010

Alma Emprestada

Como eu gostava de ser poeta... assim começa um poema de Manuel Quintella e Sousa!

Tropecei neste livro e achei que precisava de o ler. O livro esse, "Dias sem Sol", é muito mais que isso. É a alma de alguém. Por ele sei que o poeta ficou orfão ao 5º dia, quando Deus só descansou ao 7º. Sei que, perdeu a rosa com quem se entrelaçava ao vento, com quem fazia amor metafisicamente, por quem deseja todos os dias que a morte o leve para junto, a quem a cama é o mesmo que uma campa, tamanho é a solidão e a frieza.

Sinto invandir a vida deste indivíduo, como se o futuro estivesse retido no presente que já é passado. Página a página, poema a poema, palavra a palavra, sentimento a sentimento, sensações familiares, medos únicos, ansiedades muito minhas. A alma roubada é a minha afinal.

Quem me dera ser poeta e mandar aos 4 ventos o que me corroi internamente e com isso conquistar a paz que teima em me atormentar.

Empreste-me o poeta a alma e diria por palavras que não são minhas, mas que possuiria por próprias:

in Dias sem Sol, "Sinto-me Só"
"Sinto-me só, abandonado,
Como aquele que perdeu o autocarro,
Sinto-me como o mendigo
Que escolheu o local errado,
Sinto frio, vindo de dentro,
Sinto aquela mão,
Que não me dá alimento,
Sinto que vivo, por viver,
Sinto que vejo, só por ver!
Sinto que sou o palhaço
Sem circo, sem público,
Sinto que me esgoto,
Que me gasto,
Sinto que só falo
Quando estou só,
Sinto que me vejo
E até a mim meto dó,
Sinto que sinto
O que já não sinto,
Sinto que já estou por tudo,
Sinto que falo
Só porque não sou mudo
Sinto isso tudo,
Mas matem-me, ao menos,
Porque não quero estar só
no Mundo!"

Manuel Quintella e Sousa, com a tua alma entendo melhor o que dentro de mim transporto e por isso o meu muito obrigado, ao poeta, ao filho, ao amante, mas acima de tudo ao homem...

quarta-feira, 17 de março de 2010

Aconchego dos sentidos

Mergulhei numa orgia dos sentidos. Volúpia intensa rematada pela pele, pelo olfacto, pelo paladar, pela audição; percepção que escapa aos olhos...

A visão, essa faculdade do ser humano, habituada a ser personagem principal, que nos devia mostrar o mundo como ele é, mas esconde o que se esconde para além do cheiro ensurdecedor prostrado perante os olhos.

Enganei-a, enganei a visão. A receita é intransmissível, não pode ser replicada. Os ingredientes banalizam o resultado. O corpo está exausto, os músculos comprimem num latejar, não de agonia mas de concretização. O coração brada a sua força a cada recanto e a cada célula do meu organismo. Os pulmões dizem presente, fomos capaz de acompanhar... Sucesso individual, transportando o colectivo para excitação plena de equilíbrio. Como sempre falta algo...

Incenso, temperatura, amplitudes, som, velas, água, algodão "sedoso"... Fecham-se os olhos. Mergulhar num emaranhado de sons, cheiros, percepções da pele. Sem esforço o som da respiração progressivamente sobrepõe-se, desencadeando um fluxo de energia que se propraga como um tremor de terra suave mas avassalador. Os dedos dos pés, as pernas, o abdomen, os braços, o pescoço, o rosto, os cabelos. Emergir num espaço intemporal e plasmático. De novo em uníssomo. Transformação de dentro para fora. Venha o universo contido naquelas paredes.

Não há entendimento, não há percepção, o que há é um som que vibra no corpo, odores que abraçam o ar em teu redor, ondulando lentamente em direcção ao nariz; a pele transforma-se numa imensa antena parabólica que capta cada estímulo, cada mudança de temperatura, cada gradiente de pressão. Tudo como uma parte, mas uma parte do todo...

E a visão? A visão está lá mais atenta que nunca, a fazer o papel que realmente é o dela. Lentamente os outros sentidos convidam-na a juntar-se à tela. Abrem os olhos, mas, mas, mas... O que é tudo isto? já cá estava? Nunca vi um vermelho assim; formidável as sombras criadas pelo ondular do fumo da vela, e o brilho da água a correr, mas, mas, mas...

Esteve sempre lá, está sempre lá, só saber como e deixar os sentidos aconchegarem a alma!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Pausas pautadas

Give me a fucken break, kitkat moment, o que for preciso. Se isto é como andar numa montanha russa, porque raio esta descida não termina? Será que há mesmo nova subida?

Posso pensar que caminho
Mas é o solo debaixo de mim que se move,
Posso julgar que conheço
Mas tudo o que vejo surge reflectido num espelho!

A parvoíce prospera
A insignificância do desprezo invade-me.

Não sei
Não duvido
Não questiono
No entanto sei, duvido, questiono.

Realidade distorcida
Ânimo hipotecado.

"Yes we bellieve"
"O tio está demente"
Quero acreditar
Não quero tios dementes.

Não me faço ouvir
Então não merece que fale.

Relatividades, Einsteinices
Quantico, sem anti matérias
Eclético patético poético (jorra no micro)
Vidas são vidas.

Não resta magia
Pestanejo e a água não pára.

Já pautei,
Entrei no tom
Posso entrar no ritmo do universo
Exercício egoísta.

A pausa terminou...

segunda-feira, 1 de março de 2010

Farol de Sonhos

É noite, são noites. O singular e o plural, um só e todos. O começo não importa o final esse sim marca a diferença. Adormeço com a sensação de estar incompleto, acordo com o desejo, a vontade de ser melhor e mais além e atingir o equilíbrio e harmonia...

É como mergulhar num oceano azul turquesa. Está mesmo ali à frente, ao alcance do braço, mas estendemos e não tocamos, não atingimos, mão cheia de nada. Assim fecho os olhos sem que o ritmo cardíaco se tenha ajustada a um embalar discreto e suave, sem que os músculos atinjam níveis de relaxamento fluídos... Acordar pesado, ânimo inexistente e arrastar anímico dia fora.

Desperto em sintonia com o telemóvel que berra umas quaisquer notas de um slogan publicitário. A velocidade com que me levanto nada se compara ao sorriso que exibo no rosto. A viagem serve de retrospectiva para a sucessão de eventos que conduziu a tal despertar. A memória permite regressão até a um ruído "oco", de frequência aguda que se desvanece com um período harmonizado. Um farol...

Ouço-o. Não é para mim que ele lá está. Ele estoicamente luta contra sereias que atraem vertiginosamente marinheiros incautos, ao fim do mundo, ou pelo menos das vidas deles. Ingenuidade minha pensar em sereias...

Foi ele, certamente foi ele... transportei-o para outra dimensão e como gratidão, este conduziu-me, orientou-me e deu-me esperanças na mais temerosa das tempestades. Assim vivo os sonhos essa noite. Não me recordo, não preciso, ele sabe. Quando o ouço fecho os olhos e deixo-me embalar, deixo a respiração abrandar, os músculos relaxarem e deixo-me guiar como nunca...

Parto ousadamente em direcção ao desconhecido porque ele me trará sempre de volta a casa!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Penoso Ruído do Silêncio

Como pude esquecer?!

Emaranhado de pensamentos que precipitam numa turbulenta sensação de desconforto, confortado na sensação de segurança, atingida pela distância dos acontecimentos...

O poder do silêncio é enorme comparado com torrentes de palavra sem nexo, que são despejada apenas porque somos capazes de o fazer. Como se isso fosse um poder capaz de nos colocar do lado dos X-man.

O silêncio invade-nos a alma, afunda tudo em nosso redor numa pintura esbatida surrealista, que aliás sempre o foi. Pessoas, objectos inanimados, seres vivos... Tudo uma mescla de cores esborratas como maquilagem no rosto de um Deus que chora pelo insucesso da sua criação e pela traição do seu sonho idealizado!

Sinto-me invadido por esse tirano. Não tenho maquilagem porque a minha morada não é no Olimpo, mas sim tenho sonhos. Preciosas e imensas são as horas com total abstração de palavras proferidas e não escritas, mas não tem importância, nem tomo consciência do facto.

Decorreram 5 anos, de mais de 5 anos de uma outra vida que não requereu morte e nascimento. Um novo ser toma forma neste mundo. Conciliam-se recordações de tardes de brincadeira desprovida de maldade e preocupação, com a imagem de uma criança no colo. Analepse para os 5 anos e para os motivos do fracasso. Aquela criança poderia estar num outro colo... Prolepses no espaço e no tempo, com transporte da mente para um presente futuro que deveria ser o meu, mas que não o sinto como tal.

Não gosto do que este silêncio me diz, por isso vou experimentar falar...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Esponja de Sentimentos

Pensamentos bem presentes quando os sentimentos não chegam do passado ao presente, porque a porta da sobrevivência disfarçada de egoísmo bloqueia...

Há várias ideologias que mantenho bem presentes na mente, para me permitir abrigar numa ilha de reconforto, quando tudo o que sinto é oposto à serenidade pela qual em agarro de unhas e dentes.

Dissabores afectivos; "A boa notícia e a má notícia, são a mesma e uma só!" Todo o ser humano gosta de se ver como actor principal desta peça maior que é a humanidade, quando afinal "foste tu, sempre tu e nunca eu", seja o tu, o todo como indivíduo ou o indivíduo como o todo.

Serão as lágrima e as gargalhadas de Platão?! Não precisarei com exactidão, mas todos os dias e em todos os recantos alguém repete estes sentimentos e jura estar a sufocar de tamanha dor. Os sentimentos não são inventados, são distribuídos e transmitidos infinitivamente. Custa descer do altar em que nos colocarmos e atingirmos a percepção que afinal não somos tão especiais e que muitos outros passaram, passam e passarão pelo mesmo e não é que sobrevivem?!

A curiosidade pela mente humana e os processos por detrás do observável, desperta em mim uma mórbida necessidade de ajudar, com camuflagem de altruísmo. O final: e todos viveram felizes para sempre, é uma consequência e não um fim. É como um neuro-cirurgião que opera o cérebro dos seus pacientes em estado de vigília. Pois bem, é uma oportunidade única de observar o ser humano, em toda a sua fragilidade, em toda a sua dimensão, em todo o seu dinamismo, em toda a sua pequenez... Ali, expostos, nús, não será esta a maior prova de confiança?

Sempre vivi, talvez por o acaso, ou talvez por necessidade, rodeado de provas de confiança. É enriquecedor, é único e cria relações de intimidade e cumplicidade extremas que perduram para as habituais fronteiras espaciais e temporais à escala do ser humano. Contudo é tão desgastante. Uma esponja, em toda a sua função, é como me sinto por vezes. Passo, lavo, e transporto comigo parte da angústia, dando lugar a um surpreendente conforto na pessoa. Observo tudo isto com fascínio, quando tudo o que bastou foi escutar, provocar sorrisos, forçar a lágrima quando se imponha, proferir simples palavras e selar tudo com um abraço, que se estranha, se aceita e se deseja como oxigénio para alguém que se afoga.

Ela está lá, parece não ter formas e contornos de ser vivo. O mais fácil de explicar a uma criança é que é made in china, mas não... É, ou foi, um ser vivo e não uma planta, mas sim um animal. Se me baterem doi-me, se me magoarem choro, sei o que é alegria e atravesso o mesmo deserto de desespero humano. A esponja tem um limite, não absorve sem fim. Esta esponja só pede que não lhe fechem todas as saídas, não me cerquem, deixem-me aqueles espaço de fuga para um refúgio só meu... Prometo voltar e simplesmente estar presente para os vossos votos de confiança!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Dicionário Introspectivo

Um projecto que iniciei e não continuei. O objectivo não era terminar, porque fim não o há, espero. Começou por ser uma ideia de auxílio para alguns que me apontam o dedo na complexidade da minha personalidade. Agora é uma necessidade de me encontrar, se algo ou alguém se sentiu ajudado com o ponto de partida, venho agora cobrar, ajuda-me a encontrar; quem eu sou?!

O título é o ponto de partida para a viagem que antecede uma escrita, é um check in obrigatório, onde conferimos a bagagem e reservamos o direito ao nosso lugar na viagem.

Levava escrito no bilhete: dicionário "Joelês". Antes de pedir o lugar à janela achei que não era nessa viagem que queria embarcar...

A vida é formada por muitos acontecimentos e muitos lugares comuns, lugares comuns que condicionam os acontecimentos, e acontecimentos que se tornam em lugares comuns. Carrego já alguns lugares comuns comigo. Dizem-me não quem eu sou, mas quem eu desejo não esquecer de ser, permitem que permaneça vertical perante os obstáculos que surgem.

Este dicionário/glossário é um puro exercício de egoísmo. Exercício sem fim, tal como um poço sem luz. Lançamos a moeda e alguns segundos depois ouvimos o som desta a beijar a água, mas o fundo esse que travará a moeda e terminará o beijo com um abraço, só imaginando. Assim será feito por partes, ao sabor da memória, sujeito aos caprichos das circunstâncias e mutável como a vida.

Pela lógica irracional da mente:

- "Não sou mercenário, mas também não sou missionário". De uso profissional para exprimir que os bons projectos são essenciais, mas sem € nada feito.

- "Quando nasci trouxe 2 coisas ao mundo: um nome limpo e um par de tomates". Aplicado em várias vertentes mas essencialmente profissionais, para vincar que sou íntegro e disposto a ir às últimas consequências.

- "Só quero o que têm para me dar". De contexto da vida íntima, significa que procuro não criar expectativas mas que estou atento e se me deram verdadeiramente tudo, receberão bem mais.

- "Não tenho uma forma de vida, mas sim uma forma de estar na vida". Aplicação ampla, que representa uma postura idealista e me permite não esquecer dos meus princípios e crenças.

- "Para me sentir pleno preciso de me sentir motivado e estimulado". Aplicado com superiores hierárquicos como forma de "alertar" que preciso de novos projectos (motivação) e de um aumento (estímulos), com relativo sucesso.

- "Não a queres não a estragues". Conselho a amigos que dão excessiva bola a miudas não querendo nada, complicando a vida a quem vem a seguir

- "Elas têm que querer mais do que eu". Filosofia para impedir de ficar do lado de quem sofre.

- "Já alguém dizia: onde se ganha o pão não se come a febra". A tradução aqui é fácil, mais palavras para quê?!

- "Sempre disse o meu avô: Uma dás a todas, duas dás às que tu escolhes, três dás à mulher que escolheres casar". Não segui o conselho, agora é algo que prego aos amigos.

- "Para trabalharmos não temos de ser amigos, mas..." Afirmação proferida a relações mais conflituosas no local de trabalho, para relembrar que embora passemos mais tempo juntos que com família e amigos, as relações profissionais imperam sobre as pessoais entre colegas de trabalho.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Os "Moedinhas" desta vida

Pelo fogo que me arde na alma, algumas palavras têm mesmo de sair. Viro-me para o passado e ganho algum tempo que me permita ordenar tudo o que ameaça ganhar forma e rapidamente ruir.

Jornal enrolado em cone, empunhado em riste no ar, qual mosqueteiro esgrimindo argumentos... Não foge da realidade, mas a imagem real suscita outros sentimentos opostos no campo do agrado.

Inundaram primeiro as cidades, as periferias e estão em todo o lado qual vírus. Primeiro eram os simples despojados da vida, simples como é o esgoto que não interessa a ninguém, mas complexos nas agruras que os atropelaram. Hoje são tudo e todos, sem racionalidade da droga que os faz recorrer a todos os expedientes, quando não sobram familiares para roubar, amigos para enganar, ou quando o corpo já não atrai nenhum perverso que pague dinheiro por qualquer momento desprovido de sentido.

Multiplicam-se dizia eu. Em número e em estirpes. Agora é vê-los nos semáforos, com uma água, com uma caneta, com um isqueiro. É vê-los nos parques dos supermercados a judar com as compras, em troca da moeda que fica no carrinho. Há tudo, em todo o lado, o denominador comum é um: a moedinha!

Fizera as compras do mês e uma vez mais a lista de compras mais não servira do que me levar ao supermercado, porque o que trouxe não estava escrito. Resmungava comigo próprio, não só pelo dinheiro desnecessário que gastara, mas já antever a guerra que seria transportar aquela carrada de sacos no elevador e adivinhando quantas viagens teria de fazer da garagem até casa, para abastecer a despensa de artigos que falta alguma me fazem.

Contorno a última esquina e dois precipitam-se sobre mim. Penso: "foda-se só me faltam estes putos de merda para me moerem o juízo!" Ultrapassada a questão de qual dos dois me iria "abordar" (claro que o maior, que este mundo não é para peixinhos), a atenção recaía toda sobre mim. Ostento a cara mais obtusa que tenho e digo a mim mesmo que não vou estar com as rotinas de que não tenho dinheiro, nem mesmo dar uma volta maior, ou fazer qualquer manobra de diversão. Não, desta vez vou mesmo direito ao carro. Ainda nem liguei o rádio e já ouço uma música que mais não é que a rotina de mendigagem do miudo num português incompreensível.

Permaneço calado, com o mesmo olhar. Abro o carro, olho para o puto nos olhos pela primeira vez e digo: cala-te lá com essas pechinchices que o carrinho já é teu. E ele calou-se... Foi-me passando os sacos e observando discreta o conteúdo. Terminando tão árdua tarefa, olho-o pela segunda vez e digo: obrigado. Não um obrigado de circunstância, mas um obrigado por se ter calado e por ter sido útil. Ele devolveu-me um obrigado, mas não um obrigado de circunstância. mas um obrigado por não o ter obrigado a repetir o discurso que diz vezes sem conta, e por não ter colocado as perguntas de onde estão os pais, se tem fome... Foram dois obrigados de respeito, de diferença e igualdade nessa experiência.

"Fugimos" de dar a moedinha, não com medo que nos risquem o carro, não com receio que nos espetem uma agulha, mas pelo receio de encarar uma realidade que pensamos ter optado ignorar. E não é pelo preço, preço esse que é muito baixo. Com a moedinha fazemos o que Pilatos fez e lavamos as mãos de um problema que não é nosso, mas que poderíamos e deveríamos ajudar a resolver.

Daria uma e outra e mais outra; daria todas as minhas moedinhas e ainda assim sobrariam fantasmas, receios, angústias e sentimenos de impotência e fragilidade, mas não páro!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Comédia de uma vida (i)real

É verdade que adoro mimo e não é menos verdade que gosto mais de dar do que receber, só que, só que por hora, é de receber que procuro. Arrumo a questão com um ligeiro pormenor, no trajecto para o obter tenho de me expor e assumir o meu fracasso para quem não o queria fazer... Doloroso, mas necessário e sei que me trará todo o carinho que necessito. Tudo se precipitou e o habitual gozo terminou num silêncio carinhoso.

Engraçado como tudo muda tão pouco em tanto tempo. Recebem-me em casa num papel que não é deles, o papel de pais. Talvez seja de maior responsabilidade, porque foi por eles escolhido. Recordo este episódio entre muitos de bons momentos que lá passei. Tudo começou no fenómeno que eu designei por Casalfilia e do qual voltarei a falar.

Finalmente uma comédia poderia dizer, mas... Mas que é a minha vida para além de uma comédia?!

Não estava a ser sarcástico, não desta vez. Venham os factos e avaliação surja naturalmente.

Penso: Porque não?! Um simples jantar, a melhor das indumentárias. Olho para o espelho e penso que já poderei falar na terceira pessoa tal qual um jogador de futebol, quando mais não fiz que agarrar a roupa em cima da cadeira.

Eis que se inicia a estória e em vez de "era uma vez" permito-me utilizar: eu, os papás adoptivos, uma grávida, um afinador de pianos e uma gata castrada...

Debilitado da boca (não mastigo mas falo e bastante), não como mas bebo, bebo e bebo. Chego lá bem mais depressa que habitualmente... O riso é grande, a malta fomenta. A Maria João Pires gosta de brasileirinhos mais novos vestidos de branco; no Japão é que se afina bem pianos; a gata anda fodida que não se lambe; Bla Bla Bla mas está muitos bom.

Alto vou ver o Mamma Mia, finalmente! Sofá enorme e o elenco repete-se: a grávida, o afinador de pianos, os papás adoptivos, a gata castrada que aliás não me deixa vá-se lá perceber porquê e claro, EU. A minha avaliação do filme?! Bem à beira disto o Música no coração é um filme de acção...

Second act. No one mess whit zoan... O espião israelita que quer ser cabeleireiro. Primeiro o Project blair Witch, seguido pelo Miss Sun Shine... Lá diz o povo: não há duas sem três. É verdade adormeci, não resisti, tamanha era idiotice.

Diverti-me muito, tranquilizei a alma, anestesiei a boca e fodi um pouco mais o fígado. É uma comédia, ninguém tem de se rir porque a vida é minha ainda que os personagens saiam da tela de vez para vez...

Tudo termina com os papás, a grávida, o afinador de pianos e eu com uma gata castrada deitada no meu colo a transmitir calor intenso ao meu mais profundo ser... Traduzindo: a aquecer-me a merda da pila como o caraças quando queria era dizer CARALHO...