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sábado, 6 de março de 2010

Capitães de Areia

Pedro Bala, Professor, João Grande, Dora, Sem-pernas, Gato, Boa-vida, Querido-de-deus, Volta-seca, Pirulito... Miúdos de rua da Bahia, meninos feito homens que superam a ausência do carinho de uma mãe, de um adulto, a fome, a violência, a miséria, de uma só forma, ripostando com mais força...
Superada a inicial relutância na leitura desta edição em português do outro lado do Atlântico, mais por uma questão de estranheza que qualquer falso puritismo linguístico, vejo-me mergulhado num universo muito confinado que Jorge Amado tece ardilosamente.

A forma como os meninos são apresentados um por um, numa casualidade que só encontra justificação na assertividade da escolha do momento oportuno. A forma como entendemos o grupo como o conjunto dos meninos, sem que perca o espaço do indivíduo em si e por si. O final é o possível, estando a falar do final há tanto no início que ainda sinto versatilmente na minha mente. Uns vencem, para outros a questão da vitória é pessoal, mas todos cumprem os seus desígnios.
É uma crónica social brutal, dura, humana na sua mesquinhez, ingenuidade de sentimentos, na propensão sanguinária, mas acima de tudo real. Choca, pela impunidade da maldade pela passividade da autoridade, do clero...
Cada menino transporta inseguranças minhas, medos, receios, mas também orgulho, teimosia, espírito de sobrevivência, sentido de justiça...

A palavra escolhida seria coragem, coragem dos miúdos, coragem de continuar a ler o livro, coragem por não recear sentir!
Certo que lá chegarei, sem mais desculpas...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Início de um diário

O sorriso é sempre o mesmo, quando um livro amolga vigorosamente a resma de papeis inúteis que enche a minha caixa de correio e esvazia um entusiasmo ridículo de encontrar algo mais que publicidade ou contas. A minha dealer, a minha fada dos livros, deixa o meu tesourinho e sempre, mas sempre, deixa um bilhetinho com palavras simples, porque simples é a chave que abre a alegria ansiada.

Desta vez será diferente e o gesto de devolução na caixa de correio da vizinha, levará não só o livro como uma visão para além da porta que se abriu. Linha por linha, página por página, proponho-te este diário a dois, num egoísmo que é só meu porque não pedes nada, nunca o fazes, apenas dás. O caderninho será o álbum de fotografias que encetei, quer queiras quer não estás na viagem...Viajo, sem esperas em check in's, sem jet lag, sem dispender dinheiro e trago muito mais que fotos e sensações de efemeridade. É esta a viagem que te descreverei.

O livro que terá o prazer de abrir este diário, merece a honra porque enorme foi o prazer que me oferendou. Começando pelo livro material, extremamente gasto, folhas amareladas, amarrotado, de textura macia de centenas de dedos que as tocaram, por vezes numa fúria incessante por devorar página sobre página tentando descobrir o que acontecerá, outras vezes vagarosamente sorvendo cada estímulo e prazer do que retira.
O livro, o autor, Paulo Coelho, O Alquimista, a ordem errada a fórmula certa. Este autor há muito deixou de pertencer à minha escolha. Não porque não goste, mas porque rock stars não podem ser bons escritores, nem o inverso. Preconceito talvez, mas não o impinjo, é apenas meu. Sempre numa toada espírita com a qual me revejo, tenta encontrar significados para ânsias "auto-humanas", seguindo uma linha de auto ajuda, retirando qualquer significado.

Lenda Pessoal... Entendo que este livro é o significado, o alicerce, o big bang, a molécula, de toda a obra do autor. Uma obra e tanto, que necessita a reflexão individual, para uma percepção múltipla e humana. A minha é minha...


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Arca do Tesouro VII

Um poeta, um só livro, uma obra, uma vida... Estes poemas organizados pós morte do seu autor encerram para mim um sentido único, as origens de um poeta. Pela inquietação, pelas buscas das técnicas e pela crítica que cada mudança de direcção que a escrita tomava, mostram um percurso de crescimento de um poeta.

Curiosamente fica patente que quando Cesário tenta causar impacto na sociedade literária da época é quando a escrita menos fascina e fica mais amorfa entre convencionalismos ditados pelas correntes. Libertando-se deste celeuma de desejo de se notoriar, a sua alma é enorme havendo lugar ao racionalismo da profissão herdada, com a paixão e beleza do mundo rural. Há ardor sem dúvida nas descrições, há chama de vida e presença de morte.

Toca-me imenso a mensagem e a devoção do amigo que publica o livro a título póstumo. Possa a morte levar-me e surja um amigo que reuna algo que assemelhe a uma obra e o publique, porque assim não terei fracassado.

A morte roubou o homem mas fez nascer o poeta, porque partiu na exacta altura em que se imortalizou pela obra...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Arca do Tesouro VI

Finalmente o Nobel, o nosso, o deles, sei lá, creio com a crise de identidade nem ele sabe a que país pertence. Aprendi a odia-lo quando defendeu a inclusão de Portugal em Espanha e sempre disse que por ter levado uma espanhola para a cama, não tem direito de nos foder a todos.

Por diversas vezes comecei as mecas obrigatórias do autor e não passei das primeiras páginas. A justificação, a mesma após atribuição do prémio, falta de pontuação, palavras que não existiam e uma obscuridade de ideias com latências insondáveis, que numa perspectiva freudiana atirariam para a infância uns quaisquer traumas. Curiosidade, no alemão a tradução obedece e pontua...

Presente de Natal, na mente um debate televisivo com um padre. Uma petulância excessiva por parte do autor contrastando com humildade do sacerdote, para terminar num retractamento público do primeiro pelo uso de expressões como filho da puta para substantivar Deus. Ingredientes que faltavam para iniciar a leitura. A inércia do conceptual da escrita do autor desvaneceu-se ao fim de poucas frases e apaixonei-me.

Falta juntar sal à receita, há muitos anos atrás li o Antigo Testamento e entre as exaustivas descrições da tenda de Abraão, fiquei com imensas dúvidas de várias passagens. Porque quereria o Deus benévolo que eu amo, que Abraão sacrifica-se o seu filho? Como surgiu a humanidade se Adão e Eva tiveram apenas dois filhos homens e um foi assassinado pelo próprio irmão? Tantas outras passagens me suscitaram dúvidas, para as quais nunca me foram dadas respostas.

Saramago fez isso, deu-me respostas, preencheu os espaços em branco de forma astuta, coerente e intensa, tendo tudo feito sentido na minha mente. Agarrou-me e entrei nas palavras, nas frases, nas páginas. A pontuação fiz eu, tal como o autor sempre afastou as críticas e estranhamente ganhou uma intensidade e um ritmo muito meu.

Não questiono a raiva de Caim por Deus, não questiono o Deus tirano e cruel. Não julgos os desígnios desta personagem que por acaso é Deus, é uma personagem e o livro não é O livro, não é a Bíblia. As descrições são soberbas, a intensidade do coito de Caim com as mulheres é de uma pujança incrível. O ódio de Caim algo que definiria por belo, pois lhe dá um significado, uma coragem e uma missão. No final o autor Homem cala o personagem Deus, expiando o seu Grande Pecado.



terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Arca do Tesouro V

Como eu gostava de ser poeta... assim começa um poema de Manuel Quintella e Sousa!

Tropecei neste livro e achei que precisava de o ler. O livro esse, "Dias sem Sol", é muito mais que isso. É a alma de alguém. Por ele sei que o poeta ficou orfão ao 5º dia, quando Deus só descansou ao 7º. Sei que, perdeu a rosa com quem se entrelaçava ao vento, com quem fazia amor metafisicamente, a quem deseja todos os dias que a morte o leve para junto, a quema cama é o mesmo que uma campa, tamanho é a solidão e a frieza.

Sinto invandir a vida dessa pessoa, como se o futuro estivesse retido no presente que já é passado. Página a página, poema a poema, palavra a palavra, sentimento a sentimento, sensações familiares, medos únicos, ansiedades muito minhas. A alma roubada é a minha afinal.

Quem me dera ser poeta e mandar aos 4 ventos o que me corroi internamente e com isso conquistar a paz que teima em me atormentar.

Empreste-me o poeta a alma e diria por palavras que não são minhas, mas que possuiria por próprias:
in Dias sem Sol, "Sinto-me Só"

"Sinto-me só, abandonado,
Como aquele que perdeu o autocarro,
Sinto-me como o mendigo
Que escolheu o local errado,
Sinto frio, vindo de dentro,
Sinto aquela mão,
Que não me dá alimento,
Sinto que vivo, por viver,
Sinto que vejo, só por ver!
Sinto que sou o palhaço
Sem circo, sem público,
Sinto que me esgoto,
Que me gasto,
Sinto que só falo
Quando estou só,
Sinto que me vejo
E até a mim meto dó,
Sinto que sinto
O que já não sinto,
Sinto que já estou por tudo,
Sinto que falo
Só porque não sou mudo
Sinto isso tudo,
Mas matem-me, ao menos,
Porque não quero estar só
no Mundo!"

Manuel Quintella e Sousa, com a tua alma entendo melhor o que dentro de mim transporto e por isso o meu muito obrigado, ao poeta, ao filho, ao amante, mas acima de tudo ao homem...

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Arca do Tesouro IV

Parti na viagem usando o mapa de alguém. Alguém que me sugeriu, que recomendou, "a tua cara, irás reconhecer-te". Que melhor cartão de visita para empreender uma viagem que decorre no desfolhar das páginas de um livro?! O livro, "Jogos de Sedução" de Madeline Hunter.

Sem enredos demasiado elaborados ou construções que se desenvolvem ao longo de todo o livro para um culminar de poucas linhas, a autora é ousada e mostra ousadamente onde pretende chegar logo nas primeiras páginas, e por primeiras páginas compreendem-se mais 300 em diante. Ousada é mesmo o adjectivo "substantizado", mas é um risco calculado pois possui um trunfo desarmante...

Nunca, e é mesmo à força da palavra que me refiro, nunca vi uma mulher que descrevesse tão bem o lado masculino da sedução, do amor, do sexo. O oposto existem imensos homens que o fazem. Uma força tremenda, imagens penetrantes, carnais, musculadas, suadas, sentimento de possuir, de arremessar toda a energia contra um corpo que desejamos incessantemente...

"Acariciou-lhe as coxas por baixo da camisa de dormir. A sua mão deslizou sobre as suas ancas e nádegas. Um toque hábil e erótico provocou um estremecimento avassalador..." Corto a cena por aqui porque afogam-me as imagens na mente de uma ansiedade inquietante, mas pelas poucas palavras, ficam apenas os primeiros metros da descida alucinante de uma montanha de encostas propícias a debaneios eróticos. Há porém o lado marcadamente feminino, as palavras que ele devia ter dito, a expressão errada de rosto com o sentimento que demonstra, o gesto errado, em suma os pequenos detalhes que dilaceram qualquer tentativa de considerar homem e mulher sentimentalmente iguais no sexo e no amor. Tudo lá, o lado masculino e feminino.

Há um grande parêntises a fazer, toda a estória se desenrola no que presumo pelas descrições, ser o século XIX, o que sublinha uma vez mais a ousadia... Termino com uma nota muito pessoal, mas nada surpreendente para quem me sugeriu o livro, de facto a forma como estas duas personagens vivem a sua relação tão intensamente, quebrando tabus e lutando estoicamente contra todas as adversidades é a forma de viver e sentir que aspiro, sem no entanto fazer daquele final a minha Meca de fé...



terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Arca do Tesouro III


Devia-o, devia a mim mesmo. Iria jurar que havia lido algo do Poeta, olvidando-me qual a peça da sua obra. Juraria mas atraiçoa-me a memória. Poeta maior da Terra que não me tendo visto nascer, me viu crescer e na sua parte me fez crescer. Espacei o tempo da visita física ao lar que o viu crescer e morrer, à visita à parte da alma que escolheu mostrar. Atraiçoado e em dívida início este caminho obrigatório numa antologia que me irá "seduzir e conquistar" na causa Regiana.
Diz o homem de si:
"Poeta sou! cumpro o meu Fado, estranho
Como o dum santo ou um louco
Só posso dar de mais ou muito pouco
Que é tudo quanto tenho"

Como poeta divide o narcisismo da certeza de possuir um grande dom expressivo, com a fragilidade humana em que "as suas virtualidades ultrapassarem sempre as suas realizações". Posso julgar entender, como um filho segura a mão forte de um pai e lhe pede que conduza, com a certeza de abraçar Deus. Neste prazer "recente" da poesia, julgo ter descoberto um alma mater de uma técnica elegante, com arrebatadores e extraordinários excertos de alma, conciliados entre o divino e o profano, o altismo e a fragilidade, emprestando ao objecto da sua escrita uma ingenuidade intemporal.

Um sublinhado para o poema "Romance de Vila do Conde"...


Hemorragia de palavras organizadas em pensamentos vagos de uma diarreia indistinta, do alimento que implicou tal resultado. Fácil encostar o livro e agarrar o Sudoku na viagem à Bavaria. Ficou antes da metade...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

EUtopia

Actos quotidianos são frequentemente acompanhados pela banda sonora perfeita. A mesma química associo ao meu livro de viagem que me acompanhou nestas últimas quatro noites. O livro, Um km de cada vez de Gonçalo Cadilhe, a viagem, Wroclaw na Polónia.



"Mas não te apresses nunca na viagem. / É melhor que ela dure muitos anos / Que sejas velho já ao ancorar na ilha / rico do que foi teu pelo caminho / e sem esperar que Ítaca te dê riquezas . / Ítaca deu-te essa viagem esplêndida (...)" (Ítaca, poema de Kavafis)

Gonçalo Cadilhe é uma descoberta pessoal com pouco mais de 1,5 anos. É com paixão, admiração, respeito e acima de tudo inveja que li cada um dos seus livros, tendo tido a oportunidade de conhecer o seu mundo, ou melhor o mundo pelos seus olhos. Preencheu um espaço na minha imaginação e tem em cada um dos seus livros fornecido combustível que reúno cuidadosamente  para um dia iniciar a minha própria utopia, a EUtopia.

Sentir-me-ia defraudado neste livro não fosse a explicação inicial do autor. Guardo como meus os motivos e parto para a descrição da minha viagem usando algumas pontes comuns usadas pelo Cadilhe. "Não quer viajar, quer apenas chegar".  "O sedentário está perdido porque tem um destino que não encontra. O nómada não procura, encontra-se no próprio acto de viajar". Nestas frases encontro o mote da minha viagem. Parti, parto sempre para chegar, mas com a esperança de me encontrar, fugindo para isso do que tento deixar para trás.

Cadilhe (GC) tem uma postura pessoal muito própria. Defende o que parecem lugares comuns, sendo no entanto autêntico e genuíno numa coerência única. Foi por ele que encontrei a melhor definição de turista em oposição a viajante. Partilho em princípio, os mesmos valores que ele defende. Como referi atrás, vou mostrar a minha viagem como se de uma estória do livro se tratasse, fazendo a minha leitura muito própria sobre ideologia do GC e os ensaios para a EUtopia.

O avião a forma mais rápida de lá chegarmos e por definição para (GC) não é viajar, porque perdemos tudo o que Ítaca dizia; para mim serve. Viajei sozinho numa forma egoísta de me por à prova, mas com rede de segurança uma vez que tinha amigos no destino. Viajar sozinho é aliciante não podemos contar com ninguém, dá-nos liberdade, obriga-nos a estar atentos, em constante estado de concentração. Inevitável o uso da linguagem gestual como meio essencial de comunicação quando falha o inglês, espanhol e até mesmo francês, seja para pedir indicações, informações sobre transportes públicos, horários de monumentos, descrição da comida no restaurante...

Viajei sozinho, cheguei ao aeroporto encontro taxista com inglês perfeito e cultura acima da média para os patamares europeus, sucedendo-se um diálogo muito interessante durante a hora de viagem até ao meu destino, que nem consigo ler na sms que mostro ao taxista. Resolvo arriscar e aceito marcação de estadia numa residência de estudantes, com a garantia de casa de banho e quarto individual. Convenço-me que sai mais barato e é uma forma de estar mais próximo da "viagem". Levo com um grego gay, num quarto onde a minha cama não caberia, sujo e onde abundam cheiros nauseabundos. Dou por mim em seguida num Hostel, ainda sem casa de banho privativa, mas com um quarto individual pequeno, mas ausente de cheiros e mais importante sem qualquer cavalo de troia que me possa atacar durante a noite. Na manhã seguinte acordo e digo que vou saltar mais uns km na "viagem", vou para um hotel com todas as comodidades.

Percorri a cidade toda, mochileiro genuino vergado ao peso nas costas onde vão o portátil, máquina fotográfica, mapas, livro, mp4, chocolates, ou seja, tudo o que um mochileiro júnior necessita. Percorro todos os locais do mapa triunfalmente e entre também nas zonas menos turísticas. Sinto o pulsar da cidade e das suas gentes. Dica, na Polónia os museus e monumentos só estão abertos de Quarta-feira a Sábado. A cidade é limpa, organizada, sem sinais do comunismo, o que aliás encaixa perfeitamente na espécie de amnésia colectiva dos polacos, parecendo que nunca foi um país comunista. Pelo que vi e conversei, são um povo desprovido de identidade pessoal, quer ao nível musical, gastronómico, arquitectónico, dividindos entre uma postura russa mas com filosofia alemã. Não primam pela simpatia mas são bastante disponíveis à abordagem sendo o domínio da língua inglesa apenas para alguns e de faixa etária baixa.



Um pouco por toda a cidade reconhece-se cicatrizes da Segunda Grande Guerra Mundial. Curiosos os pequenos duendes de bronze colocados estrategicamente em pontos chave da cidade, às centenas como medida moralizadora pelo que apurei. De facto funciona e parece alegrar os Polacos, para além que acresce de interesse a minha prospecção ocular em cada local a que vou, no sentido de capturar mais um desses divertidos seres em fotografia.



É uma cidade voltada essencialmente para a vida estudantil tendo inúmeras faculdades e estudantes estrangeiros, com forte presença latina. Como tal a diversão nocturna é forte, com música actual. A moeda Polaca o Zloty, só em 4 unidades iguala o Euro, tornando a vida mais barata em relação aos níveis portugueses sendo que apenas em vestuário e tecnologia a diferença é pouca ou nula.

De dia sozinho, de noite puxava a rede de segurança e encontrava-me com os meus amigos. Muito mais haveria a falar, condições metereológicas, locais visitados entre outros. Não era isso que me propus e retomo os passo que escolhi trilhar nestas linhas. O meu corpo pagou a minha ousadia de km sem fim, mal alimentados, com demasiado peso e sinto dores latejantes nas pernas. Revogo o meu plano final de passar uma noite em Barcelona e salto mais uns km na minha "viagem". Booking online e escolho o melhor hotel que encontro junto ao aeroporto, com SPA, e tudo o que um 4 estrelas da Europa Ocidental oferece, não olho a custos, estou em dívida para com o meu corpo. É do quatro estrelas que escrevo estas linhas.


Acordei, perguntei ao organismo como estava, avaliei a possibilidade e dei por mim no autocarro a caminho de Girona. Valeu a pena Girona é uma cidade lindíssima com passado, identidade e uma rica história arquitectónica. Aconselho vivamente uma viagem para a conhecer, nas suas muralhas, inúmeros monumentos barrocos, ruínas romanas e indícios de presença árabe. Lá em cima as muralhas, cá em baixo o rio. O mochileiro júnior, qual obra do destino encontra o mapa da cidade no chão e inicia a caça dos tesouros. Foi uma forma de recuperar alguns dos km perdidos da "viagem".

Pouco mais merece o meu esforço em decifrar. Ainda não sinto o desejo de chegar e avaliando sei que saltei imensos km nesta "viagem", se calhar não estou ainda preparado para a EUtopia; ou se calhar é mesmo esta a minha EUtopia.

Senti-me em breves trechos fugir, fugi sem me encontrar talvez por isso mesmo tenha conseguido fugir. Foi este o meu "livro de viagem", resume-se a este desejo de fuga.

sábado, 28 de novembro de 2009

Arca do Tesouro II

"Antes de nos Encontrarmos"

O título seduziu e levou-me abraçar o desejo de espiar cada uma daquelas páginas e sugar algo que pudesse tomar como meu, acendendo a luz da esperança que ameaça sucumbir.


Estória, ou melhor dizendo estórias, bastante adensadas. Uma construção única de personagens que dificulta ao início a percepção de quem será transportado para o círculo central do protagonismo, tecendo um enredo que sufoca na curiosidade. Ousadamente a autora lança-se na descrição de vidas em horizontes culturais, geográficos e temporais extremos, tornando-se torturoso adivinhar de que forma poderão , dois caminhos cruzarem-se.

Duzentas páginas para completar esse desafio. Dois terços de livro, em exercícios de descrição extenuante das personagens e da construção da personalidade das mesmas. "Um livro intenso, envolvente... que me manteve acordado noite fora, incapaz de o fechar." Ditos de uma crítica que agora me permiti agora confrontar pela monotomia de um desejo que tardava realizar.

Voltando ao número de páginas e à autora, duzentas foram as páginas que precisou para desenvolver uma visão única, que apenas uma mulher consegue. Julga ter identificado as suas duas personagens e dedicado igual proporção da sua arte a ambas, quando do elemento feminino foi o absoluto domínio; facto que só um homem consegue entender...

Novamente, as duzentas páginas, após este número e a um número diferente do fim, cento e dez, começo atingir o meu objectivo. Duas pessoas com percursos diferentes, passados improváveis, buscam um refúgio, um para fugir do presente e outro para buscar o passado. Desenrola-se uma apaixonada estória de conquista humana genuina, pautada de rituais orquestrados que me fazem pular, sorrir, desejar chorar... Reconheço-me na perfeição, sou eu, não sei como aconteceu mas fui lançado para o centro do círculo.

É aquela a minha forma de ser e estar, de desejar. Não sou um mas sou os dois, fujo do presente e busco o passado. Estou esgotado mas num estado de êxtase de quem atinge o seu objectivo; revejo a crítica, entendo-a agora. Autora, mulher, homem?! Não sei, não é de mulher, não é de homem, é de algo ou alguém de quem necessitava ler.

Caio em mim, estou amedrontado, não quero continuar. Impelido pelo pânico encerro o livro esquecendo para trás dois dedos, que teimosamente ficam pelo livro. Ou será que lá ficaram por algum motivo?! Pego na caneta, uso o papel e escrevo o meu final, sem adensamento, sem reboscar. O meu presente, bem como o meu passado, comprometem o meu futuro. Pouso a caneta, largo o papel, esqueço o meu desejo, saio do centro do círculo e deixo que Stella e Jake tenham a hipótese de ter algo que julgo nunca vir a ter...

Os dedos tinham razão...

P.S.: Um grande bem haja à Vizinha Bibliotecária que é incansável em me satisfazer os caprichos, em me encontrar exemplares e mais difícil, dar-me o que preciso ainda que eu não o saiba. Alimentas-me a alma e não fazes pergunta alguma...

domingo, 15 de novembro de 2009

Arca do Tesouro I


Tenho o mau hábito de ler, devorar letras, palavras, páginas, livros e obras, ideias, sentimentos, transfigurações para o meu quotidiano. Usurpador de almas, mas um usurpador convidado, porque quando publicamos algo perde-se um pouco de nós.

O único sítio que tenho para guardar estes tesouros é a minha memória, ficando assim estas preciosidades à mercê da volatibilidade de um espaço que não é material. Começo aqui a minha arca do tesouro, para preservar a minha memória futura.

O Anel do Poço de Paulo Teixeira - Falo sem saber, falo pelo que julgo ter ouvido, mas algo será verdade. Quarenta e poucos anos, perde um filho muito pequeno, reforma-se com uma das maiores indemnizações que este país já viu, depois de um dos mais sonantes casos da banca, e tem Alzheimer. Algo tem de ser verdade e na verdade encontro no magnetismo e curiosidade pela leitura da obra dele. Depois do segundo livro, tenho a opinião formada que me proibirá de ler mais o que quer que seja dele; completamente despropósito de egoísmo espásmicos...

Ponto último e outros poemas de John Updike - Arrebatador, escrito na última etapa da vida, com a plena consciência do momento, abraça a vida e aceita a morte como o atleta que rebenta a fita de chegada no final da corrida. A forma como fala das pessoas do passado no tempo futuro, marca o desejo do reencontro e de enviar o presente para o passado. Aborda a morte como parte da vida e nunca o assombramento dos últimos dias traz nuvens de tempestade a uma escrita que atrai. Poema obrigatório: "A minha mão esquerda dorida".

Quarteto para as próximas chuvas de João Rui de Sousa - "Não digo", "Anotação", "Doi-me doer", expressões claras, simples e sinceras de dores humanas. Leio as palavras, antevejo os sentimentos e penso, "ei é minha essa dor", ou "sou eu que ama assim, sou eu que sou odiado assim". Ilustração quase perfeita do que defendo, a boa e a má notícia são uma e uma só, ninguém morre por isso, mas não somos tão especiais como julgamos se alguém já o sentiu. Devia ter sido minha a frase: "Apenas digo que pastoreio no vento um rebanho de dúvidas!"