terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Música Clássica

Momentos de egoísmo, um bom vinho. Espera, acrescenta uma tábua de queijo... Música clássica e poesia, o casamento perfeito, em puros momentos de partilha egoísta entre mim e eles, eles os sentidos. Ambos prazeres tardios, mas que despertaram juntos e no exacto momento que me permite apreciar devidamente.

Ainda agora gatinho e já a minha mente é transportada a visitar sensações desconhecidas. Apenas as percepciona, ainda não as interpreta. O que fará quando caminhar...

Gatinho agora, mas já sonhava ter gatinhado, quando sonhar era gatinhar. Cada crescer, cada explosão, cada estremecer, cada grito, cada arrepio com que os meus sentidos correspondiam a um maestro que não via, mas que me guiava, indicavam que havia algo. Juntei pequenas pecinhas, construí um puzzle e confirmei. Ouvia quando não tinha idade para caminhar. Acalmava-me disseram-me. De irriquieto passava a um transe profundo, corpo rígido e olhos sem alma...

É épico, não ouço o homem ouço sim a natureza. Cruzo montanhas, atravesso desertos, mergulho em mares e rios. Os ouvidos são os anfitriões. Os tambores são trovoada, as cordas água e vento, as flautas as vozes indecifráveis dos seres vivos, os pianos o fogo... E deixo-me levar, nesta palete de sons...

TCHAIKOVSKY em vinil fazia os meus encantos e no meu cérebro menos infantil e mais infame, antevia o prazer que me traria cada reacção da agulha a beijar cada rugosidade do 12". O meu vinho enebriante...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Solidão

O que é solidão?! É estar sozinho agora, prostado no sofa olhando pela janela sem nada procurar? Ou será a solidão estar na multidão de gente e sorrir, sorrir, sorrir? Sorrir é a melhor alternativa a tudo o resto, fazer sorrir é fácil.

Solidão não se sente, solidão não se procura, solidão não é nossa. É ruído sem barulho, é cor sem luz, é tacto sem contacto. Não existe, simplesmente não existe. Conceitos de irrealidade difusos na exasperante vontade de viver. Porque é a solidão a ausência de companhia e não a companhia uma negação da solidão. O oposto à solidão é apenas uma costela desta, que mais não vale que uma expulsão do paraíso.

A minha solidão é a melhor companhia de todas. Conversamos, pensamos, sorrimos, choramos, tudo fazemos sozinhos. Somos autónomos, somos um só. O convite para a partilha é recíproco e tácito. Entendes-me?! Entendes mesmo?! Sorriso de tranquilidade num maternalismo que não posso recuar e recuperar... Não te exponhas, não te reveles, não te mostres, sabes o que acontece... Obrigado tens razão!

Se quero ficar sempre contigo?! Deixas-me levar um livro?! E se for mais que um, e se for o livro?! Posso levar uma música, várias músicas, a música?! Posso levar algumas coisas, a coisa? Se calhar ainda não estou pronto, mas eu quero, eu quero realmente, realmente quero e vou, conseguir irei e juntos estaremos.

É tudo o que tenho por certo, é o único dado adquirido, no entanto por vezes sentimo-nos tão sós...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Definições

Recebo definições do meu Eu social sem as pedir, mas hoje pedi e tendo pedido foi uma surpresa o que recebi. Recebi e também esbati um poucos as margens difusas do objecto no qual cabe uma qualquer sombra de definição minha.

Muito encaixa numa definição, mente com bouquet perfumado, de estrutura sóbria na atitude, deixando um trago agridoce na conquista do desconhecido. Poderá ser um pessoa ou um vinho, ou outra coisa qualquer, objecto ou ser vivo. Falo de amor, como falo de projectos, como falo de sentimentos é tudo uma amálgama de ingredientes que se conjungam para projectar a forma física com que sou percepcionado. A complexidade é por isso logicamente intuida na perspectiva que soa mais familiar ao receptor.

Intuir não será o meu esforço, venha a definição. Estou na fase da ovulação, a minha mente encerrou-se. Em seu redor número incontável de espermatozóides, feito ideias, feito sentimentos, feito projectos. Todos tentam nenhum a convence. O tempo escasseia, o período de fertilidade aproxima-se perigosamente do fim, e a mente encerrada. Foram alguns as ideias frustadas, os sentimentos perdidos, os projectos fracassados. Ela não quer, eu quero, ela manda... Que se foda a mente, venha a menstruação, não haja tampão que impeça a hemorrogia de uma mente que teve medo demais de viver. Outra mente tomará o seu lugar e novos espermatozóides surgirão debatendo-se por a convencer. Tudo muda e só eu permaneço igual... Complicado, quem eu?!

Parece descontextualizado mas de facto encaixa como a última pedra que segura a abóboda da Catedral que presta culto à minha definição. Remeti-me para o silêncio quando li e não sei como sair... "És uma pessoa extremamente sensível, intensa, profunda e inteligente, ou não, e é apenas uma patologia da personalidade mascarada com essas características (...) Procuras excessivamente a essência das coisas... da vida... dos sentimentos... das relações... esperas demasiado das pessoas, parece que ninguém te completa... queres de mais... assim não vais longe, não vais ser feliz... Descomplica a vida (...)".

O que não tem mesmo nada haver mas distrai-me com um sorriso que julgam não caber neste espaço, onde estas palavras surgem, é a seguinte partitura de humor, acalentando ternura.

"Monsters are real, and ghosts are real to. They live inside us, and sometimes, they win". Stephen King

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Nota de culpa

Era perfeito, era tudo tão perfeito. A forma como me olhavas, não podia ser engano. A forma como os teus lábios recebiam os meus, tiravam o sentido a tudo em que o nós não estivesse presente. Foste feita para mim... Como é que algo tão certo pode ser tão errado?
Surgiste e foste, sem agora sentir que cá estivesses. Sinto apenas que uma enorme parte de mim foi arrancada. Porquê, mas porquê?! A minha mente está entranhada do sonho, o sonho que vi em ti, o sonho que fiz para nós num egoísmo que abraças-te como teu.

Quero que partas, quero que desapareças, mas quero que deixes o calor do teu abraço que me apertava a pontos de magoar. Deixa-me a paz que encontrei nos teus olhos. Preciso ficar com a ilusão que é possível, mas parte, parte por favor. Desesperadamente tento agir como sei, como resposta ao que não sei e no fim recebo com juros mais desespero. Poderá alguém julgar que amou sem nunca ter amado?

Eu sei, eu sei mas estou amordaçado. Que importam as fraquezas humanas?! São para humanos, mas o que floriu não tinha fragilidades, não foi tocado pela demência humana. Mas então e porquê, porquê... Na tua mala de bagagem leva as fragilidades, todo o mal, toda a dor, porque isso não quero guardar.
Fujo, isso eu sei, fugir para frente, para os lados, o percurso não interessa. Antes tivesse sido traído, mas não fui. Não sendo fui-o, a traição foi minha, de mim para mim, é o que mais doi. Chega, tens de partir que alguém poderá estar a chegar...

Nesta estória de conto de fadas que se pode iniciar, a princesa apenas chega após as doze badaladas e eu saio primeiro sem o sapato de cristal para a encontrar. Entre máscara e capa em que me escondo, será ela que me encontrará...

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Fugas

O que há com a música que nos consegue fazer sentir tão próximos de nós mesmos?! A música é alimento, é bebida, a música preenche-nos, identifica-nos, aconchega-nos, enche de energia, transborda a melancolia. Pelas notas suspensas nas pautas encetamos viagens longas, derrubam-se barreiras...

O mar está calmo, não há correntes, não há vento. Cansei de nadar, cansei de esbracejar, simplesmente estou à deriva, numa sensação de quem mais não tem a perder. Uma nota, duas notas, uma melodia, uma voz, uma música e depois outra e mais outra. Sinto novamente movimento debaixo do meu corpo, estou de volta à estrada, ao mar, ao espaço do meu infinito, a música leva-me...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O Penoso Ruído do Silêncio

Como pude esquecer?!

Emaranhado de pensamentos que precipitam numa turbulenta sensação de desconforto, confortado na sensação de segurança, atingida pela distância dos acontecimentos...

O poder do silêncio é enorme comparado com torrentes de palavra sem nexo, que são despejada apenas porque somos capazes de o fazer. Como se isso fosse um poder capaz de nos colocar do lado dos X-man.

O silêncio invade-nos a alma, afunda tudo em nosso redor numa pintura esbatida surrealista, que aliás sempre o foi. Pessoas, objectos inanimados, seres vivos... Tudo uma mescla de cores esborratas como maquilagem no rosto de um Deus que chora pelo insucesso da sua criação e pela traição do seu sonho idealizado!

Sinto-me invadido por esse tirano. Não tenho maquilagem porque a minha morada não é no Olimpo, mas sim tenho sonhos. Preciosas e imensas são as horas com total abstração de palavras proferidas e não escritas, mas não tem importância, nem tomo consciência do facto.

Decorreram 5 anos, de mais de 5 anos de uma outra vida que não requereu morte e nascimento. Um novo ser toma forma neste mundo. Conciliam-se recordações de tardes de brincadeira desprovida de maldade e preocupação, com a imagem de uma criança no colo. Analepse para os 5 anos e para os motivos do fracasso. Aquela criança poderia estar num outro colo... Prolepses no espaço e no tempo, com transporte da mente para um presente futuro que deveria ser o meu, mas que não o sinto como tal.

Não gosto do que este silêncio me diz, por isso vou experimentar falar...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Esponja de Sentimentos

Pensamentos bem presentes quando os sentimentos não chegam do passado ao presente, porque a porta da sobrevivência disfarçada de egoísmo bloqueia...

Há várias ideologias que mantenho bem presentes na mente, para me permitir abrigar numa ilha de reconforto, quando tudo o que sinto é oposto à serenidade pela qual em agarro de unhas e dentes.

Dissabores afectivos; "A boa notícia e a má notícia, são a mesma e uma só!" Todo o ser humano gosta de se ver como actor principal desta peça maior que é a humanidade, quando afinal "foste tu, sempre tu e nunca eu", seja o tu, o todo como indivíduo ou o indivíduo como o todo.

Serão as lágrima e as gargalhadas de Platão?! Não precisarei com exactidão, mas todos os dias e em todos os recantos alguém repete estes sentimentos e jura estar a sufocar de tamanha dor. Os sentimentos não são inventados, são distribuídos e transmitidos infinitivamente. Custa descer do altar em que nos colocarmos e atingirmos a percepção que afinal não somos tão especiais e que muitos outros passaram, passam e passarão pelo mesmo e não é que sobrevivem?!

A curiosidade pela mente humana e os processos por detrás do observável, desperta em mim uma mórbida necessidade de ajudar, com camuflagem de altruísmo. O final: e todos viveram felizes para sempre, é uma consequência e não um fim. É como um neuro-cirurgião que opera o cérebro dos seus pacientes em estado de vigília. Pois bem, é uma oportunidade única de observar o ser humano, em toda a sua fragilidade, em toda a sua dimensão, em todo o seu dinamismo, em toda a sua pequenez... Ali, expostos, nús, não será esta a maior prova de confiança?

Sempre vivi, talvez por o acaso, ou talvez por necessidade, rodeado de provas de confiança. É enriquecedor, é único e cria relações de intimidade e cumplicidade extremas que perduram para as habituais fronteiras espaciais e temporais à escala do ser humano. Contudo é tão desgastante. Uma esponja, em toda a sua função, é como me sinto por vezes. Passo, lavo, e transporto comigo parte da angústia, dando lugar a um surpreendente conforto na pessoa. Observo tudo isto com fascínio, quando tudo o que bastou foi escutar, provocar sorrisos, forçar a lágrima quando se imponha, proferir simples palavras e selar tudo com um abraço, que se estranha, se aceita e se deseja como oxigénio para alguém que se afoga.

Ela está lá, parece não ter formas e contornos de ser vivo. O mais fácil de explicar a uma criança é que é made in china, mas não... É, ou foi, um ser vivo e não uma planta, mas sim um animal. Se me baterem doi-me, se me magoarem choro, sei o que é alegria e atravesso o mesmo deserto de desespero humano. A esponja tem um limite, não absorve sem fim. Esta esponja só pede que não lhe fechem todas as saídas, não me cerquem, deixem-me aqueles espaço de fuga para um refúgio só meu... Prometo voltar e simplesmente estar presente para os vossos votos de confiança!