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sábado, 23 de janeiro de 2010

Verona

Paz de espírito, foi o que mais assinalo nesta viagem. O motivo, não pelo sentimento, mas da viagem, o trabalho que em cinco horas se despachou deixando o resto de tempo para conhecer a pequena cidade de Adro em Brescia e Verona.

Fácil a justificação para o anterior motivo, mais difícil para o motivo que verdadeiramente me interessa. Revivo a viagem em mente, a descrição da cidade, sonso, cheiros, cores, texturas, vibrares, pedindo o auxílio da memória que os meus sentidos depositaram na minha mente.

Sem egoísmo dou traços gerais das fotos mentais, como quem dá a miudos livros de colorir. Os contornos proponho eu, a cor preencha quem o desejar. Talvez um pequeno traço de cor, mas com a subjectividade do ângulo da minha máquina que fica sempre uns passos atrás da perspectiva que espero captar. Uma foto, uma cidade.


Qualquer busca no google ditará a sentença desta cidade, local da estória de Romeu e Julieta. Facilmente encontram o site viewing, com os diversos monumentos desde a presença romana na arena, à cidade à beira rio plantada, passando pelas imensas igrejas e torres que prosperam em todo o redor que nos viremos, recortando a linha de horizonte num picotado que se traduz numa silhueta à qual não passo despercebido.  Suspiros lançados da ponte, em águas de uma cor cristalina que adivinham temperaturas baixissimas.

As ruas são estreitas e pulsam de vida, a vida do presente como também do passado. Caminhando por elas, sinto que se estender os braços toco nas extremidades e pelos meus membros sentirei percorrer os sentimentos despejados pelas pessoas que ali passaram, sem distinção do sexo, idades ou épocas.

Os ouvidos sentem o silêncio fúnebre habitual de edifícios que hoje são monumentos mas outrora foram locais onde existiam pessoas de verdade e não seres que disputam ângulos diferentes, para roubar um pouco da alma do espaço em máquinas desenhadas para fotografar.

As fachadas dos edifícios são alegres, de cores vivas não obstante as inúmeras caixas fúnebres que ostentam algumas dessas fachadas.

Sereno dizia-me eu, sim sereno em paz de espírito. Da ponte dos suspiros lancei ao rio um suspiro que há muito se debatia na minha garganta para sair. Paz de espírito foi o que tive. No meu google Verona é significado de paz de espírito, o sentimento que me tem faltado há muito tempo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Estrangeiro mas pouco


Desta vez é diferente... Não, não é, é o replay da mesma sensação estranha que invoca um habitual fatalismo associado ao acto que se avizinha. Queria que fosse novo, queria sentir algo diferente.

“Desculpe, posso tirar os sapatos? É que vai accionar o alarme e pouparia uma data de trabalho ao seu colega e a mim”. Um riso trocista ou de antecipada satisfação fez-me sinal para prosseguir e claro, a profecia concretiza-se. O látex das luvas explode nas mãos e por antecipação sinto o afagar minucioso do toque masculino, que por natureza ou educação, aprendo a desprezar nestas situações.

De uma ponta à outra, percorro corredores com afinco mas pouca determinação. Prometera cigarros a um preço que menos custaria destruir os pulmões. Uma e outra vez, e nada, uma simples sms liberta-me de uma promessa não cumprida. Tomo o meu lugar na multidão aguardando o pássaro de ferro, como Ícaro toma as suas asas.

A lotaria do lugar. De terra para o avião, o primeiro ritual, perceber qual seria o meu lugar, tão certo como João Paulo segundo beijar o solo que pisa, do avião para a terra. 31B, significa avançar por um corredor estreito até ao final do avião, apreciando lutas titãnicas de quem procura arremessar violentamente bagagens para um espaço que a física diz ser impossível. Já tenho a compreensão que ficarei no meio de 2 perfeitos estranhos, mas antes assim, pelo menos não serei empurrado para conversas de circunstância, e também não terei de aturar arrufos ou cenas mais melosas de namorados. Cheguei, limpo o cheiro de suor das narinas dos que bravamente se batiam no campo de batalha que testemunhara; no corredor uma mulher, na janela um homem. Ele concerteza alemão, ela talvez holandesa, ou belga. Um excuse me de circunstância apontando para o lugar que era meu. Olhar perdido, o dela pelo menos que o meu não vejo. Decifro um vocábulo que ouvi de uma hospedeira e lanço, presumidamente desculpe na tradução; sim é alemã. Aí ela levanta-se e eu tomo o que é meu por direito. MP4 fora da mochila, e o livro, uma última vista de olhos em volta. “Mas, mas ela tem a caras, será que só quer ver as fotografias? Nem sequer há gente muito bonita”. Profiro uma sentença qualquer em português e ela impávida prossegue a leitura numa delonga que denota que faz algo mais que ver imagens. “Espere lá é portuguesa ou não? É que estou confuso.” Quem diria é mesmo Tuga. Piada habitual, sorrisos e pouco mais digno de nota no resto da viagem para além de uma ou outra situação ridícula, cuja personagem central admire-se foi ela e não eu. Uma vista de olhos pelos aspectos ergonomicamente capazes de dar prazer ao homem e nada de destaque; aliança no dedo sentencia uma viagem silenciosa. Um sorriso despedida no final...

Não há muito que ver na janela, está nublado. Sono dos justos, o alemão é tiro e queda, haverá de acordar mais tarde já toda a gente almoçou e foi recolhida a comida. Com ar satisfeito abordo-o e aponto para o tabuleiro como quem diz, isso está aí graças a mim, come e agradece. Só que a cara dele denota algo diferente de agradecimento... Pois ficou enjoado com o cheiro. Ainda encetei uma graçola, quanto a mim extremamente bem conseguida, mas o máximo que consegui foi que passasse de cara de enjoo para inexpressivo. Não falava inglês quero eu crer...

No banco de trás outra tuga. Esta é fácil de perceber, embora em inglês fala pelos cotovelos e não se apercebe que para o seu interlocutor sueco a visita a Portugal terminara quando saíra do aeroporto Sá Carneiro. Para ele bastava saber que ouve um tipo devasso qualquer, que escrevera numa métrica exacta, sentimentos que cabem tanto naqueles cantos como a bagagem nos compartimentos – certo é que veio toda, engane-se a física- um livro intitulado “Os Lusíadas”. Bastava saber, não precisavam que o lessem para ele, alguém diga isso à tipa. Estou tão absorvido em perceber os níveis de irritação que a tipa provoca no seu vizinho, que nem entendo a intolerância que eu próprio estava a desenvolver.

Os microfones debitam sem qualquer estética, a mensagem repetida vezes sem conta informando que iniciamos a descida para Frankfurt. Desperto, sem me ter apercebido de ter partido. Nos ouvidos o plano de fundo conquista de novo a perspectiva principal e ouço a banda perfeita na mensagem, imperfeita na situação. “Podia ser mais bonita”, penso eu. A mesma voz que dentro de mim faz esta reflexão, depressa obtém resposta de outra voz, dizendo: “claro que não quando entraste viste todas e não havia nenhuma e a menos que alguma tivesse entrado durante o voo...” Ela está impaciente e percebo um pseudo tolerante sinal para desligar o aparelho. Coloquei o meu mais expressivo olhar para tentar comunicar: “então não vês que é a música Creep?!” Arrepios senti com o gesto de mão que se seguiu e a ovelha tresmalhada depressa se reuniu ao resto do rebanho cumpridor...

Volto a dar utilidade às pernas. Verifico a minha porta de embarque e registo um atraso de meia hora no voo de ligação. Procuro a casa de banho. Até aqui tudo normal. Já sou estrangeiro no meio de estrangeiros, num país que não é o nosso. Puxam-me o braço: “desculpe fala português?” Seguindo o exemplo da miúda que se sentara ao meu lado, ou eu ao lado dela, nas mais de duas horas anteriores, faço uma pausa e respondo um pouco convicto sim.Afinal não sou estrangeiro, trarei uma bandeira com cinco quinas na testa?! Ou será que trago no semblante a alegria de um tetra campeonato de véspera? Futebol não é decerto que o hábito de ganhar não é novo, e da novidade se faz o despertar de sentidos. Então é porque tenho mesmo cara de português. Escolho orgulhar-me disso e tomo o bilhete da senhora sozinha com idade para ser minha avô e ofereço-me para a levar à porta de embarque dela. Descobre que ela fala algo entre português e alemão. A todo o caminho agradece-me como se agradece um bênção divina e lamenta-se não ter o marido que esse sim sabia tudo. O telemóvel já está ligado e depressa o trabalho chega até mim. Tenho de consultar as placas em alemão para me certificar se não aterrei num aeroporto português. Uma voz do lado de lá do telefone, e uma a meu lado a puxar-me pelo braço aflita por estar atrasada. Uma palavra para acertar a pessoa ao telefone que ouvia quando não era de todo verdade, e um olhar reconfortante para a avozinha para tranquilizar. Chegamos, deixo-a, ouço uma prece de gratidão, uma mesinha que sei que tem poderes mágicos e me protegerá, ou assim escolho acreditar...

Chego à minha porta de embarque. Faltam duas horas, música, livro, lojas, que escolho fazer? Ainda para mais a porta foi alterada e nem sei onde é. Não escolho nada, abro automaticamente a mochila, puxo o meu bloco de notas com teclado e deixo que eu seja escolhido. Tecla após tecla debito palavras e linhas. Retiro do espírito estas horas de viagem como o excesso de bagagem que não necessitamos. Agora sim posso ir à casa de banho...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Madrid

Madrid, que falar sobre Madrid?! Assentando a poeira no seu devido tempo, sempre é mais fácil subtrair um pouco a euforia da novidade, da descoberta, das expectativas goradas, da imensidão do mundo novo que abraço no início de uma nova viagem.
Descrever qualquer viagem para mim, tem sempre um denominador comum, algo a que não me esquivo de exaltar pela aspereza com que me deixo moldar pelas mesmas. Oprimo-me, com alguma relutância é certo, mas ainda assim com assertividade, a retratar esse denominador comum, falando mais de Madrid e não tanto da minha Madrid.
Mais duas das três notas prévias, antes de me lançar no desafio. Tento manter sempre presente a disparidade imensa do significado dos verbos estar e conhecer. Estive em alguns lados, conheço muito poucos; estive em Madrid, não conheço Madrid. Último exercício do prelúdio, serei guia mas apenas da memória, não intento nada mais para além disso...
Primeiro associação de ideias com Madrid, La Movida Loca. Vários pontos, várias praças, o mesmo conceito, multiculturalidades, inter-racial, álcool, música. Tudo ingredientes da cidade mais ruidosa da Europa. Tudo verdade, contudo captei muita disciplina, se é que a há na recreação nocturna, sendo o balanço uns decibéis abaixo do que assumi como verdade. Benefício da dúvida, "temos de dar o desconto, pois podemos estar desfasados dos pontos chave". Nota positiva para Plaza e Calle Mayor, nota bastante negativa, pela opressão sentida na Chueca...

Tema mais delicado, mais visceral para mim, o movimento gay. Programa RTP1, "Conta-me como foi"; Paris estava para altura em termos de expressão e liberdade heterossexual, como Madrid está para a homossexual nos tempos actuais. Não sou homofóbico, ou melhor não me considerava, mas senti-me oprimidíssimo, uma minoria, um perfeito ensaio da sexualidade, em que o que assumo como maioritário passa a minoritário. Cidade meca, para casais gays e toda a sua exuberância, são imensos e as expressões de intimidade transcendem em muito o que socialmente é aceite para os casais ditos normais, em todos os países por onde passei. Senti-me afrontado nas minhas liberdades e ao mesmo tempo ébrio pela curiosidade; senti-me por vezes peça de carne, outras mirone doentio. Aspecto positivo a liberdade e igualdade de direitos; aspecto negativo os excessos de quem não sabe viver a liberdade e usa pretexto da anterior opressão, para oprimir (Chueca é o exemplo).
Cidade funcional. Rigor na limpeza urbana, bem dotada de infraestruturas, excelentes espaços verdes em termos de qualidade, localização e quantidade, sistema de metro bastante extenso e intuitivo; não se sente insegurança, polícia sempre presente. O custo de vida é bastante elevado falseado pela questão turística, os preços acrescem perto dos centros de interesse e ao fim-de-semana; uma cerveja vai dos 3€ aos 6€. Habituais presenças de arte de rua na sua expressão mais bela, como também da mendicidade.
Arquitectonicamente, espaços bem conseguidos, funcionais e sem muitos edifícios devolutos nas zonas históricas. Ponto positivo, sentimento de cidade como um todo, organismo vivo, ponto negativo o excesso. Aspectos culturais. Imensa oferta, a preços convidativos ao contrário de tudo o resto. Sem grandes filas, bem organizadas e bem assinaladas. Vibra cultura a cidade, orgulha-se da usa herança, do seu espólio e demonstra-o. Arrisco-me alongar e não mais terminar, como tal abro o para quedas antes de tempo e recomendo um qualquer guia, onde seja descrito com rigor e imparcialidade. Permito-me contudo a falar do orgulho mais do que turístico da cidade, por D. Quixote e seus companheiros. Uma vez falado, calo-me e deixo o para quedas fazer o seu papel...
Cultura local. Multidões de gente em todo o lado, difícil reconhecer o verdadeiro madrileño, se é que o existe. Doença de qualquer grande cidade, a mescla é tão grande que obriga a uma redefinição da identidade. Madrid tem algo diferente contudo, reúne numa só cidade um só país com todas as suas diferenças; encontramos um pouco de cada uma das regiões de Espanha. Tipicamente as pessoas são afáveis, expressivas e comunicativas, visão bem castelhana. A gastronomia é a esperada, não me vou alongar, apenas registo que fugir dos circuitos habituais pode assegurar baixa de preço, mas não aumento da forma genuína ou qualidade da comida.

A minha Madrid. Foi um desafio a viagem pela companhia, e como desafio que foi, grande foi a recompensa, alguns atritos, mas imensa partilha e sintonia; parabéns às meninas e ao vitoriano. Pelos três espécimes mexicanos que juraram-se isentos de gripe suína, e que acrescentaram alegria adicional a uma noite de Sábado memorável. Uma tal de Sónia Braga que me trouxe ao consciente memórias que não eram minhas, na libido do homem que ainda não nascera. Actriz na televisão, mulher cuja idade não esconde as formas frondosas de outra época e de uma simpatia e simplicidade únicas.

A importância desta viagem nesta frase da minha, assemelha-se a um parênteses que permite respirar. Aberto o parênteses, a relutância em o encerrar é superior ao previsto, salve-se que aí vem Hannover...